quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Inacreditável!

Evitei de postar sobre o absurdo ocorrido em Santa Maria porque não havia nada a ser dito naquele momento, chocado que estava ainda pela tragédia (até porque era meu último dia de férias no Brasil e eu ainda estava na região), que já não tinha sido feito. Agora, de cabeça mais fria, e com as informações sobre o caso vindo à tona, tenho várias coisas a dizer sobre o fato.

Mas não vai ser nesta postagem; hoje li algo que me deixou ainda mais revoltado e não posso deixar em branco.

Depois de escancarada a falta de preocupação com a segurança de todos os envolvidos (banda, boate, poder público) e as conseqüências trágicas de tal mentalidade, não tenho palavras para definir aqueles que, 3 dias após o desastre, ainda defendem que se deixe perpetuar a avalanche do Grêmio, agora no novo estádio da Arena.

Entendo que a comemoração passou a ser uma marca registrada da torcida gremista, onde ela demonstra toda sua paixão pelo clube e realmente é muito bonito de se ver, mesmo para mim que sou colorado. Entretanto, deixando a paixão de lado, como negar que é algo perigoso e introduz um risco totalmente desnecessário?

Muita gente agora está dizendo que basta reforçar a grade, que a avalanche sempre aconteceu no Olímpico e nunca deu problema, e por aí vai.

Mas será mesmo que não se aprende? Quase 250 corpos foram recém sepultados e ainda se tem coragem de declarar, aos quatro ventos, que devemos ignorar as normas e os avisos dos especialistas em segurança? Mas que raio de cultura podre é essa que nós temos? A ignorância não tem mesmo fim?

Assim como em Santa Maria a tal da banda sempre usou pirotecnia e nunca deu problema; assim como na Kiss se costumava usar fogos em outras ocasiões e nunca deu problema; assim como era mais bonita a parede sem o extintor pendurado e nunca deu problema; assim como a mesmíssima coisa aconteceu no passado na China, na Rússia, nos EUA, na Argentina e nós aqui, tupiniquins, não aprendemos nada. E um dia acontece.

Na Europa não se usa grades para conter a torcida justamente por causa da tragédia na Inglaterra em 1989 onde 96 pessoas morreram amassadas e pisoteadas junto à grade. Ou seja, já há precedentes. E agora falam que a solução é reforçar a tal da grade em vez de acabar com a prática?

A polícia e os bombeiros já têm dito desde o início que é perigoso. Os especialistas e peritos são unânimes em dizer o mesmo. Quando a BM tentou impedir, o Grêmio e a torcida caíram matando em cima dizendo que era autoritarismo e a pressão foi tão grande que acabaram ganhando uma permissão temporária, isso depois da polícia obrigar o clube a colocar umas barreiras anti-esmagamento.

Onde vão estar o clube e os defensores da avalanche quando morrer alguém que tropeçar e cair no chão e for pisoteado pelos que vêm atrás, ou alguém esmagado junto à grade ou no meio da massa? Vão também abdicar da responsabilidade?

Está mais do que evidente que tanto o Grêmio quanto a construtora não têm a mínima preocupação com a segurança dos freqüentadores da Arena ao permitir que a manifestação continue mesmo depois de vetada por aqueles encarregados de fazer a avaliação técnica. É obrigação da torcida gremista e da sociedade como um todo deixar muito claro que a atitude dos dirigentes gremistas ao despriorizar a segurança em prol do espetáculo é inaceitável e imoral, e que é inaceitável também que o poder público que tem o poder de coibir não o faça.

Se a avalanche continuar à revelia de tudo isso e um dia morrer alguém, so há um nome para isso: homicídio doloso.

E antes que digam alguma coisa: se fosse o meu time, o Internacional, minha posição seria exatamente a mesma.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Saúde de primeiro mundo?

Duas notícias no jornal de hoje mostram que não é porque a Suécia é primeiro mundo que não acontecem barbaridades.


A primeira notícia
era de um caso onde uma mulher for ao médico porque estava com dores no estômago. O médico ouviu o coração, depois apalpou os seios e examinou-a na vagina e no reto. Na saída, o médico beijou-a na boca e tentou dar mais um beijo de língua. A mulher processou o médico mas o tribunal decidiu por inocentá-lo, mesmo havendo uma outra pessoa que testemunhou o beijo. A razão? "O testemunho era muito vago e faltavam detalhes". É difícil opinar sem saber detalhes do caso, mas para um país tão orgulhoso da igualdade de gêneros, da proteção à mulher e tudo o mais, acho a decisão no mínimo estranha.

A outra notícia era de um homem de 23 anos que ligou para a emergência e falou que estava com problemas para respirar. A enfermeira que o atendeu julgou que o caso não era uma emergência, e não mandou uma ambulância. Pouco tempo depois ele ligou novamente, dizendo que tinha desmaiado ao tentar levantar-se, mas novamente nenhuma ambulância foi despachada. Ela mandou o caso para um médico, que mais tarde ligou para a residência múltiplas vezes mas ninguém atendeu. Algumas horas depois, o vizinho encontrou o corpo do homem, morto em casa; a causa da morte foi ruptura do baço. O pai da vítima disse que o filho conversou com a atendente por 12 minutos e repetidas vezes pediu por uma ambulância, mas ninguém foi enviado à residência para checar sua condição.

[Adicionado em 02/06/2011] P.S.: Mais um caso de alguém que morreu porque a ambulância não veio.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Não sou ___, mas ...

Apareceu nos meus feeds do Google Reader este item aqui:
Não sou contra a venda de passagens a preços populares, mas esses novos passageiros precisam ser educados! Se a Gol quiser, eu dou o curso: “etiqueta no avião para a novíssima classe média”. Aliás, também não sou contra pobre, sabe, mas ele fedem, falam alto e me incomodam - mas não sou contra!

Isto me lembra algo que li uma vez, do Luis Fernando Verissimo se não me engano, onde ele diz que sempre quando se lê algo do tipo: não sou preconceituoso/racista/etc., mas... pode contar que depois do "mas" vem uma opinião extremamente preconceituosa ou racista.

Muita gente vai dizer: mas e não é verdade? De pronto, respondo: É. Tem gente que não sabe andar de avião. Muita gente, aliás. O que não consigo aceitar é atribuir isso à popularização das passagens aéreas, como se os passageiros de classe média-alta fossem um primor de comportamento.

Vou explicar por experiências próprias que tive em vôos entre a Europa e o Brasil. Não acredito que esses vôos estejam cheios dos tais "emergentes", até porque o "povão" não viaja para a Europa. Pois bem: em todos os vôos que eu peguei, eu senti vergonha de ser brasileiro. Vou dar alguns exemplos.

Uma coisa que sempre acontece em todos os vôos: no meio do vôo sempre acontece de em algum momento o comandante ligar o sinal de apertar os cintos. Pois bem, sempre acontece de alguma criatura decidir que aquele é o momento apropriado para ir no banheiro ou ficar passeando pelo corredor. Adivinha sempre de que país é o infeliz? Pra ter uma idéia, sempre vem o(a) comissário(a) que fala português vir chamar a atenção e mandar sentar porque pode ter certeza que é brasileiro. E o que é pior: já vi acontecer da pessoa ir sentar, e não passar nem 3 minutos e levantar de novo! A justificativa: cansei de ficar sentado...

Bom, não é só isso. Na penúltima vez que eu fui para o Brasil, voei de Air France. Quando o avião está iniciando o procedimento de pouso, começa toda aquela coisa padrão de anunciar em francês, inglês e português que todo mundo tem que sentar, as poltronas devem permanecer na vertical, etc. etc. O interessante é que depois deste anúncio é feito um outro, exclusivamente em português, reforçando a todos que devem permanecer sentados com os cintos afivelados e só devem levantar quando a aeronave abrir as portas. E o que acontece? Basta o avião encostar no chão e quase todo mundo começa a levantar e abrir os bagageiros. Não consigo ver nenhum estrangeiro fazendo isso. A comissária anuncia mais uma vez, exclusivamente em português, que todo mundo deve sentar porque a aeronave ainda não estacionou. É como falar com uma pedra, porque grande parte faz que não ouviu e continua o que estava fazendo. Mais alguns minutos e ela anuncia mais uma vez, já de forma ríspida e com a voz alterada, e mesmo assim uma parte não está nem aí. Ela finalmente desiste. Eu, enquanto isso, morrendo de vergonha enquanto vejo os estrangeiros no vôo sentados, entreolhando-se e comentando baixinho entre eles.

Outra situação, agora em dezembro: estava no aeroporto de Frankfurt esperando o vôo para o Brasil. Faltavam uns 20 minutos para o embarque, e um funcionário da Lufthansa dirigiu-se ao microfone para desculpar-se que o embarque iria atrasar por 5 minutos porque o reabastecimento estava demorando mais que o planejado (um parênteses para perguntar: quantas vezes alguém já viu uma companhia brasileira pedir desculpas adiantado porque o embarque vai demorar 5 minutos?). Bom, foi só ele se dirigir para o microfone que formou-se uma fila gigante para embarcar. Prestei atenção na fila e só via passaportes brasileiros. Ele ligou o microfone novamente e anunciou em alemão, inglês e português (ruim, de alemão, mas que ainda dava para entender) que o embarque só iria acontecer em 20 minutos e não havia motivo de formar a fila naquele momento. O que aconteceu? Ninguém se mexeu: ficou aquela fila atravancando toda a sala de embarque, atrapalhando as pessoas que precisavam entrar na sala. O funcionário, sendo alemão, só olhava consternado aquela cena bizarra. Passaram-se alguns minutos e ele anunciou que faltavam ainda 15 minutos, mas não mudou nada e ele desistiu. Na hora do embarque de verdade, ele disse que a prioridade eram os passageiros de primeira classe, pessoas com problemas de mobilidade, gestantes e pessoas com crianças pequenas. Poucos arredaram o pé da fila, então o que acontecia era que essas pessoas que embarcavam primeiro tinham que empurrar as outras para poder chegar até a plataforma. Enquanto isso eu me prestei a olhar em volta, nas outras salas (as paredes são de vidro) e em todos os outros vôos internacionais, com a mesma quantidade ou mais de gente, em nenhum acontecia isso. O vôo para o Brasil era o único onde tinha esse caos.

Nesse mesmo vôo tinham dois brasileiros, jovens e metidos a playboy, sentados algumas poltronas na frente da minha. Já no início do vôo estavam falando alto, quase gritando, dando risada e meio que fazendo algazarra. Por várias vezes o comissário foi lá chamar a atenção. Até que em certo momento os caras me puxaram uma garrafa de uísque e começaram a tomar (é proibido abrir bebida alcóolica no vôo); o comissário correu de volta, tomou a garrafa e teve que chamar o comandante lá da cabine para dar um ultimato: era o último aviso, se ele tivesse que voltar ali ele iria dar voz da prisão e os dois continuariam a viagem algemados e seriam entregues à Polícia Federal. Finalmente os caras se aquietaram.

Na hora do pouso a mesma coisa de sempre: um monte de gente levanta antes da hora...

Eu até presto atenção, pergunto pra mim mesmo se são só brasileiros que fazem essas coisas, mas sempre quando vejo algo assim só consigo identificar pessoas falando português ou com passaporte brasileiro na mão. E nunca vi nada parecido outros vôos, só os com origem ou destino no Brasil.

E estou falando aqui não de uns pobres coitados, mas de pessoas com um certo poder aquisitivo, que podem viajar à Europa e que tiveram acesso à educação, oportunidades, e tudo o mais. A grosseria e a falta de educação dessas pessoas são vergonhosas. Essa gente era pra ser a nata da sociedade! (Nem vou comentar a imagem que isso passa do nosso país. Às vezes o constrangimento é tal que dá vontade de esconder o passaporte.)

Então quando ouço que muita gente não sabe andar de avião, eu concordo plenamente. Mas o que me tira do sério é implicar que isso é uma coisa exclusiva do povão.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Que dia!

Chego em casa e abro o navegador: novo terremoto no Japão; massacre em uma escola no Rio, com 11 mortos e mais de 20 feridos.

Agora me sinto mal em estar reclamando de uma bicicleta roubada.

Na Escandinávia também tem ladrão

(Nossa, faz tanto tempo assim que não posto nada? Desculpem-me pelo blog às moscas.)

Ultimamente tenho usado o ônibus para ir à estação de trem. Em dezembro foi inaugurado o Citytunneln, um túnel que foi escavado por baixo da cidade (como se fosse um metrô), para evitar que o Öresundståg (o trem que conecta a Suécia com a Dinamarca) tivesse que fazer uma volta em torno da cidade como acontecia antes. Junto com o Citytunneln foram inauguradas duas novas estações, uma delas chamada Triangeln que está no meio da cidade e onde o trem para depois de sair da estação central de Malmö. O bom é que a linha de ônibus que passa bem na frente de casa pára lá, então como o inverno estava bem rigoroso e eu queria experimentar, passei a pegar o ônibus para ir trabalhar.

Acabei continuando com o hábito, pois minha bicicleta estava dando problema na troca de algumas marchas e eu queria levar arrumar, e eu não sentia confiança em deixar ela o dia inteiro lá no Triangeln sem antes comprar uma tranca mais reforçada do que a que eu tenho.

Pois bem, algumas semanas atrás levei a bicicleta para arrumar (custou 600 coroas suecas, ou por volta de 150 reais) e só faltava comprar uma tranca nova, o que eu pretendia fazer neste fim de semana.

Hoje, logo após de descer do ônibus, lembrei que tinha que comprar pão então fui direto para o estacionamento na frente do prédio pra pegar a minha bicicleta. E não é que ela não estava lá? Usei ela pela última vez na segunda-feira, também para ir no mercado, e entre segunda e hoje (quinta-feira) algum maldito filho da puta desgraçado a roubou! Logo agora que eu mandei arrumar, ainda por cima!

O pior é que não é a primeira vez que acontece isso comigo: ano passado eu ganhei uma bicicleta de um colega de trabalho que se mudou para a França, e eu usava ela na Dinamarca para ir da estação de onde desço até o trabalho (o que de bicicleta dá 5 minutos). Era uma bicicleta bem porcaria, afinal ganhei de graça, mas só para fazer esse pequeno trajeto era o suficiente. Como ela ficava todas as noites no estacionamento de bicicletas da estação, não chegou a fazer 3 meses e ela foi roubada. E o que é pior, exatamente no dia que eu tinha planejado ir depois do serviço comprar uma tranca melhor, de manhã ela sumiu.

No caso da bicicleta que eu ganhei eu não dei muita bola, afinal eu não paguei nada por ela. Mas a que eu tinha aqui na Suécia era uma bicicleta das boas que custou quase R$ 2.000!

Moral da história: compre a tranca antes da bicicleta (tem gente que precisa levar na cabeça duas vezes para aprender). E não pense que aqui também não tem ladrão.

Filho da puta!!!

domingo, 5 de setembro de 2010

Políticos no Brasil e na Suécia

Já que estamos em tempos de eleição, vou postar aqui uma série de reportagens do Jornal da Band comparando os políticos suecos e os brasileiros. Nem vou comentar nada, os vídeos falam por si só.

Uma observação: finalmente achei o vídeo da parte 4 que faltava neste post, se alguém quiser conferir.

Exibida em 31/08/2010:


Exibida em 01/09/2010:


Exibida em 02/09/2010:


Exibida em 03/09/2010:

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

The Wall Live

Roger Waters. The Wall Live. Copenhague, 7 de maio de 2009. Ingresso comprado na pré-venda e presença garantida.

Um pouco de gentileza faz bem

Hoje estava no trem indo de Copenhague para Malmö, voltando do trabalho. O trem estava lotado e várias pessoas estavam de pé, mas eu tive sorte e consegui um lugar para sentar. Em uma estação uma mulher entrou e me chamou a atenção, pois estava de muletas e ninguém no vagão ofereceu seu lugar para ela sentar. De propósito esperei um pouco para ver se alguém levantava, mas como ninguém o fez eu fui até lá e ofereci o meu lugar. Ela ficou um pouco surpresa, mas muito agradecida e sentou.

Acho que os suecos/dinamarqueses podiam ser mais gentis de vez em quando. Inclusive já escrevi sobre isso.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Futebol na Suécia (e na Dinamarca)

Às vezes me perguntam se os europeus gostam de futebol, se eles conhecem os times brasileiros, os campeonatos, e por aí vai. Bom, não posso falar por todos os europeus, mas posso contar minhas impressões na Suécia e na Dinamarca.

De um modo geral o pessoal aqui não é ligado em futebol. Claro que tem sempre quem gosta, mas é uma minoria (ou sou eu que conheço as pessoas “erradas”). Querer que alguém daqui conheça algum tipo sul-americano ou brasileiro é querer muito, não só porque as pessoas não são muito ligadas, como disse, mas também porque o futebol europeu é extremamente eurocentrista: uma parte dos jornais nem noticiou o resultado da Libertadores, e outros só publicaram uma nota de poucas linhas em algum canto da página. Pouquíssimos deram algum destaque. Eu fui trabalhar vestido com a camisa do Internacional e quando me perguntavam o motivo eu tinha que explicar o que era a Libertadores porque ninguém no meu trabalho já tinha ouvido falar nesse campeonato.

O fato é que o que não acontece fora da Europa não é importante para eles. O mundial de clubes, por exemplo, que a gente acha tão importante por aí, aqui pouquíssima gente sabe até que existe. Para os clubes e torcida quase não tem importância nenhuma, tanto que uma vez estava conversando com um cara que torcia para o Barcelona e ele nem sabia que o time tinha jogado em 2006 o Mundial da FIFA (tive que explicar o que era o torneio porque ele nem sabia que existia). E quando visitei o museu dentro do estádio do Manchester United a taça do Interclubes da Toyota (que ganharam do Palmeiras) estava exposta ao lado da taça da Liga dos Campeões, essa sim em destaque. A Liga dos Campeões é o que realmente importa para os europeus.

Vi isso também na Copa do Mundo. Não há nem de longe a mesma atmosfera que se tem no Brasil; por aqui parece que ela nem está acontecendo. Talvez eu não esteja sendo muito justo porque a Suécia desta vez nem se classificou para a Copa, e a Dinamarca tinha um time bem ruinzinho. Mas mesmo assim, teve jogos da Dinamarca que aconteceram durante o expediente e a maioria dos dinamarqueses trabalhavam normalmente, sem dar importância nenhuma para o jogo. Imagina algo assim no Brasil? Mesmo quem não curte futebol normalmente assiste pelo menos aos jogos da seleção na Copa. Quando eu falei que aí as pessoas folgam do serviço e as coisas fecham ou mudam de horário (bancos, repartições públicas) por causa dos jogos da seleção o pessoal não acreditava. Um sueco inclusive me falou que nunca deixariam isso acontecer na Suécia, porque o futebol não tem tanta importância assim para justificar o impacto na economia causado pela “paralisação”.

Em resumo: para o pessoal “comum” aqui, o futebol mesmo sendo o esporte mais popular não tem nem de longe a importância que se dá no Brasil. Se são eles que dão pouca, ou a gente que dá muita, deixo a cada um concluir por contra própria.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Ainda acho impressionante...

..., mesmo depois de 3 anos aqui, a quantidade de pessoas no trem que está lendo alguma coisa: seja o jornal, seja um livro, eu diria que por volta de 70% das pessoas que está viajando sozinha está mantendo a mente ocupada de alguma forma. E não são apenas livros de bolso: muita gente carrega livros grandes, volumosos, pesadões.

Uma coisa que ajuda muito é o fato de vários jornais serem totalmente gratuitos, então o pessoal lê os jornais e depois deixa-os no trem para o próximo passageiro. Se no Brasil tivéssemos jornais de graça acredito que o pessoal desenvolveria mais o hábito da leitura.

A Suécia também tem bizarrices

Aconteceu aqui em Malmö na noite de sexta para sábado:
Estrela inválida do ping pong assaltada depois de oferta por sexo

Peter Molander estava indo para casa na sua cadeira de rodas depois de trabalhar até tarde em uma organização para atletas com deficiências quando um carro preto parou abruptamente ao seu lado. Uma mulher saiu do veículo e perguntou, em inglês, se ele queria fazer sexo.

“Era uma pergunta estranha pra ser feita em uma meia-noite e meia na Möllevångstorg”, disse Molander ao jornal Sydsvenskan.

“Ela continuou a perguntar, apesar de eu ter dito que não. Ela disse ‘sexo bom’ algumas vezes. Então ela inclinou-se e me empurrou”.

Molander guarda seus objetos de valor em um bolso embaixo do banco e imaginou que seu novo iPhone e sua carteira iriam escapar das garras da mulher. Mas ele logo percebeu que ela fez o dever de casa e saqueou seus pertences enquanto estava por cima dele.

“Não havia nada que eu podia fazer. Eu não consegui empurrá-la para longe. Então ela levantou subitamente e falou que eu era sem graça. Quando ela viu que eu estava procurando no bolso o meu fone e a carteira ela correu de volta para o carro e desapareceu”.

Molander percebeu que durante a conversa a mulher disse algumas coisas em perfeito sueco, e acredita que o uso do inglês era apenas uma distração. Infelizmente para ele, entretanto, não houve testemunhas do incidente na praça central da cidade, que estava vazia, e ele não conseguiu anotar a placa do veículo da mulher.

A polícia na cidade recebeu vários outros relatos similares nos últimos meses de uma mulher que aborda suas vítimas oferecendo sexo antes de fugir com seus pertences.

“Foi apenas no outro dia que realmente caiu a ficha. Você começa a pensar o que poderia ter acontecido se ela tivesse uma arma ou coisa parecida. Também é muito humilhante quando você não pode defender-se”, ele disse.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A Suécia e os funerais

Lendo essa notícia aqui (em inglês) me lembrei de postar sobre um fato muito curioso que descobri um tempo atrás: aqui na Suécia quando uma pessoa morre, se faz o enterro geralmente um mês (!) depois. Aparentemente os suecos são tão fissurados nessa questão de agenda e planejamento que se marca o enterro para bem depois porque assim não se precisa desmarcar os compromissos já programados. Aí vai uma tradução livre:
A Suécia tem o maior tempo de espera para enterrar os mortos no mundo, resultando em uma grande falta de espaço nos crematórios. Assim, um crematório foi forçado a expandir seus freezers para abrir mais espaços para os mortos.

“Antes as pessoas costumavam priorizar os funerais”, diz o gerente do cemitério. “Agora infelizmente as pessoas priorizam mais a sua agenda. Isso é evidente especialmente nos períodos de feriados e férias”.

Em média, na Suécia, 23 dias decorrem entre o falecimento e o funeral. Para os 80% dos suecos que são cremados, 64 dias em média é o tempo que leva para serem enterrados.
Que coisa, hein? Aqui na Suécia é bom avisar antes de morrer, de preferência com um mês de antecedência pro pessoal poder se programar direitinho...

domingo, 25 de julho de 2010

A Suécia e o trânsito

Uma das primeiras coisas que notei quando cheguei aqui na Suécia é como o trânsito é tranqüilo e os motoristas são, de modo geral, calmos e respeitosos. Dificilmente escuto alguma buzina, quase nunca vi um acidente, e quase não se ouve falar de atropelamentos ou mortes no trânsito. Fico pensando: por que será que no Brasil não é assim?

Aqui o pessoal não corre, é difícil ver alguém andando a mais de 40 km/h na cidade. Dá para andar de bicicleta tranqüilamente na rua porque bicicletas têm prioridade e isso é respeitado: cansei de ver carros e até mesmo ônibus e caminhões andando atrás de um ciclista porque a rua é estreita e não tem como ultrapassar; e mesmo assim nunca vi um carro buzinar para a bicicleta sair da frente e abrir caminho. Com os pedestres é a mesma coisa: basta se aproximar da faixa de segurança que os carros irão começar a parar. Inclusive tem muita gente que atravessa a rua sem ao menos olhar se vem carro ou se vão parar, tanta é a confiança.

Mas cada um tem que fazer sua parte: das bicicletas é exigido terem sineta ou buzina, refletores, farol dianteiro e sinalizador traseiro. Quando se vai dobrar para a esquerda ou direita tem que sinalizar com a mão para alertar quem vem atrás. Assim como os carros respeitam as bicicletas os ciclistas devem respeitar os pedestres, sempre parando e dando prioridade pra eles quando necessário. E o pedestre, por sua vez, tem que fazer sua parte atravessando somente onde tem faixa de segurança.

Por que no Brasil não é assim? Afinal, se abrirem o Código de Trânsito diz lá que bicicleta tem que andar na rua com os carros, e deve ter prioridade sobre eles. Alguém já viu um carro esperando pacientemente atrás de uma bicicleta no Brasil? Diz lá também que a prioridade é sempre do pedestre na faixa de segurança que não tem semáforo, mas quantos de nós temos coragem de atravessar na frente de um carro? Se tudo isso está previsto, por que não funciona? Acontece que ninguém faz sua parte. A culpa sempre é do outro:
O gaúcho se considera um motorista responsável e culpa os demais pelos perigos do trânsito. A distorção entre a imagem que o condutor tem de si, em comparação com a que faz dos outros, é uma das principais conclusões de uma pesquisa divulgada ontem pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran), na Capital.
[...]
Agora, por exemplo, 69,1% dos motoristas entrevistados em 20 municípios disseram não cometer imprudências, mas 88% avaliaram que o mesmo não ocorre com os outros à volta. Do total, 90,6% ainda relataram que não receberam multas nos últimos 12 meses e 97,6% não se envolveram em acidentes no mesmo período.

A contradição de pensamento fica evidente em vários pontos. Enquanto 82,2% dizem respeitar os limites de velocidade, 55,8% observam que os outros não seguem essa regra. Em uma escala de zero a 10, o gaúcho avalia que está em 8,4 no quesito conhecimentos das leis de trânsito. Quando analisa os outros, ele acha que sabem menos: 6,2.

– As pessoas sabem dos problemas, mas não acham que são responsáveis por eles. A pesquisa traz indagações que vamos analisar para fazer um diagnóstico preciso e promover ações educativas – afirma o diretor-presidente do Detran, Sergio Filomena.

O levantamento, realizado para cumprir norma do Conselho Nacional de Trânsito que prevê pesquisas para embasar campanhas de trânsito, também mostra que o comportamento dos outros gera sentimento de insegurança. Mais da metade dos motoristas ouvidos diz se sentir inseguro porque os demais condutores não respeitam leis, são imprudentes e mal-educados.
Tenho certeza que mais da metade dos motoristas do Brasil iria perder a carteira aqui em menos de um ano, se dirigisse da mesma forma.  Acontece que o pessoal no Brasil não sabe dirigir. Dirigir não é saber controlar o carro; dirigir é saber se comportar no trânsito, e infelizmente nós não sabemos. Eu mesmo, quando vim para cá, me dei conta de que não sabia, que eu era muito agressivo na direção.

E qual a solução para isso? Educação? Não acho que seja. Veja bem, muitos de nós que começassem a dirigir aqui teria que imediatamente começar a dirigir de outra forma, porque caso contrário há a certeza da punição. Não é educação o que falta, todo mundo tá careca de saber o que é o correto, o que falta é a punição e a responsabilização. Quem não sabe que não pode beber e dirigir, mas faz assim mesmo sem consideração nenhuma com o bem-estar dos outros? Nenhum investimento em educação vai mudar esse comportamento: somente uma multa gigante, cadeia, e possível perda da carteira pelo resto da vida vai resolver, como é líquido e certo que vai acontecer aqui na Suécia.

(É por isso que me dá muita raiva essa mudança na lei no Brasil que diminuiu o limite do nível de álcool no sangue para quase zero — de 0,8% que era antes, se não me engano. O problema nunca foi o nível de álcool, tanto que quem se envolve em acidentes bebeu muito mais do que isso. O problema é que nunca houve fiscalização, e continua não havendo. Muda-se a lei mas continua-se tudo igual.)

O seguro obrigatório aqui na Europa, que é totalmente diferente do Brasil, também ajuda. Aqui o seguro não existe para cobrir o dono ou o seu carro, aqui o seguro é para cobrir 100% dos danos materiais e pessoais cometidos contra terceiros cometidos no caso de colisão ou atropelamento. Quem não tem esse tipo de seguro não pode andar nas ruas. Acho justíssimo, afinal quem quer ter a permissão de dirigir (veja bem, não é um direito) tem que ter condições de arcar com as despesas de quaisquer danos que vier a provocar. Se uma pessoa é má motorista e se envolve freqüentemente em acidentes, o seguro dela vai aumentar tanto de valor que ela vai ter que passar a dirigir direito ou sair das ruas.

Outra coisa que não vejo aqui são engarrafamentos. Malmö, onde moro, é a terceira maior cidade da Suécia mas o trânsito flui. Está certo que tem apenas uns 300 mil habitantes, mas o trânsito flui muito melhor que em Santa Maria (RS), onde morava, que tem apenas 200 mil. Todo mundo diz que as ruas em Santa Maria são estreitas, mas aqui não são maiores — e o que é pior, aqui os carros ficam estacionados na rua em ambos os lados, o que deixa em muitas ruas de mão dupla espaço para apenas um carro passar de cada vez. O que eu acho é que aqui o governo se antecipa e não deixa o problema aparecer: basicamente investimento maciço em transporte público, e desestímulos a quem insiste em usar o carro. Em Estocolmo eu sei que há uma taxa-engarrafamento que tem que ser paga diariamente para quem anda de carro na cidade. Aqui para atravessar de carro a ponte do Öresund, que liga Malmö à Copenhague, o pedágio custa R$ 150 em cada sentido (reclame agora dos preços do pedágio no Brasil); já atravessar de trem custa R$ 30 — mas se comprar o cartão mensal tem mais de 50% de desconto.

Enquanto isso, no Brasil a venda de carros é vista como símbolo de progresso. O resultado:
Parece mentira que o assunto sobre a criminalidade reinante tenha sido completamente abafado pelos engarrafamentos de trânsito na Grande Porto Alegre e, principalmente, pelos congestionamentos na Capital.

São médicos, com seus carros engarrafados, chegando atrasados a consultas e cirurgias, são profissionais de todos os matizes chegando atrasados a seus serviços, são os clientes desses profissionais também chegando atrasados.

E todos os engarrafados gastando o dobro ou o triplo de gasolina no “para-segue-para-segue”, levando o quíntuplo do tempo para chegar aos seus destinos.

*
E cada vez mais se agrava o congestionamento das nossas ruas e avenidas.

Em última análise, talvez todos sejamos culpados, os governantes e nós. Os governantes porque cruzaram as mãos nas últimas décadas e não prepararam a cidade e o Estado para o futuro, tinham de ter previsto esse gigantesco engarrafamento.

E nós, pergunto, será que temos culpa? Acontece o seguinte, se tivéssemos ônibus em frente a nossa casa, interligado aos mais diferentes lugares, ainda assim deixaríamos de apanhar o coletivo e ainda assim iríamos em nossos próprios carros? Se a resposta for sim, então somos culpados.

*
Em Porto Alegre já chegamos à marca de quase 700 mil veículos emplacados.

É espantoso: chegamos agora a um veículo por dois habitantes. Tinha de estourar, um dia haveria de explodir.

Fui um dos primeiros, os meus leitores são testemunhas, a perceber que iríamos engarrafar, há anos escrevi colunas advertindo.

Fui julgado um louco, no máximo, e um precipitado, no mínimo.

*
Agora está aí o quase colapso. Aparentemente sem remédio, porque há recursos para realizar a Copa do Mundo mas não os há para construir metrôs.

Mais sério do que tudo isso é quando uma ambulância que traz um paciente que necessita ser atendido com urgência jaz engarrafada.

Dói no coração da gente.

*
O engarrafamento começa dentro de Porto Alegre e por osmose vai se transferindo de modo terrível para os municípios vizinhos, através das estradas principais.

E o que também é grave: não há como fugir ao engarrafamento desviando por outras avenidas: todas estão engarrafadas.

E, no meio da catástrofe, outras minicatástrofes: os táxis, os lotações e os ônibus entram na mesma bacia das almas, concorrem com os carros e terminam também engarrafados.

Vejo técnicos pregando que se deve investir no transporte coletivo para atenuar a crise.

Mas o transporte coletivo não está na mesma via e na mesma condição de engarrafamento? De que adiantaria o transporte coletivo?

Não sei qual será a solução: não se pode resolver em dias ou meses o problema criado com decênios de omissão.
O Paulo Sant'Ana tem razão em dizer que o problema vem de décadas e não é de fácil solução, mas não consigo compreender que ele diga que o transporte público não adianta para resolver o engarrafamento se é óbvio que cada ônibus a mais implica uns 30 ou 40 carros a menos. Mas reconheço que convencer as pessoas num país onde o carro é um dos símbolos máximos de status a pegar um ônibus é uma tarefa nada fácil.

Pois bem. Espero ter dado uma idéia de como é o trânsito aqui na Suécia. A gente pode chegar lá também um dia, basta cada um de nós fazer a nossa parte.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Danilo Gentili, brilhante.

Sou fã do programa CQC, que passa na Band todas as segundas-feiras. Sempre assisto no YouTube. Pra mim um dos caras mais fodões do programa é o Danilo Gentili, e vi um post recente no blog dele (“Aí é que está a graça!”) que achei tão legal que tenho que passar o link:


Quem me conhece sabe que não sou lá muito fã dos Estados Unidos, mas se tem uma coisa que sempre admirei e respeitei é a liberdade de expressão que se tem por lá. Em se tratando de comédia, não dá nem para comparar o que se faz por lá e o que se faz no Brasil; já imaginaram algum político no Brasil convidando um comediante, conhecido por atacá-lo em rede nacional, para fazer piada do próprio político (que está sentado ao lado) em um evento? Pois é, leia o post do Danilo e assista ao vídeo — e estou falando de nada menos que o próprio presidente, George W. Bush!

Será que um dia chegaremos a este nível de maturidade?

Suécia, o reino verde

Vi num blog um link para uma série de seis reportagens do Jornal da Record chamada de “Suécia, o reino verde”. Apesar do nome, a série aborda vários outros assuntos além de ecologia: a capital Estocolmo, igualdade entre os sexos, licença-paternidade, culinária, invenções, e outras coisas. Recomendo!

Parte 1 de 6:


Parte 2 de 6:


Parte 3 de 6:


Parte 4 de 6:


Parte 5 de 6:


Parte 6 de 6:

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dia histórico (2)

Falei cedo demais. Na noite da virada do ano meu termômetro na sacada do apartamento estava marcando -17 °C! Haja frio.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Dia histórico

Hoje foi oficialmente o dia que eu passei mais frio na vida. A temperatura máxima foi -5 °C mas como está ventando a sensação térmica foi por volta de -13 °C. Voltei para casa pedalando e meus dedos dos pés e das mãos quase congelaram, mesmo usando sapato impermeável, meias e luvas grossas.

E amanhã a previsão é de que vai ser mais frio...

Caos total

Ontem quando estava voltando do trabalho para casa, o trem que ia de Ballerup para Copenhague parou no meio da viagem e anunciou que devido a uma ameaça de bomba na estação central em Copenhague o trem só iria até Valby, um distrito da capital. Fiquei um tempão parado dentro do trem, no meio do nada, até que o trem seguiu viagem e em Valby todos desceram. Foi uma confusão, os trens todos parados e eu não tinha o que fazer senão esperar. Depois de um tempo os trens começaram a funcionar de novo e consegui chegar em Copenhague, onde também estava caótico pois a estação estava cheia de gente por causa dos trens atrasados e cancelados. Até que não tive que esperar muito, uns 30 minutos (sendo que o trem é de 20 em 20), até que vi que o trem que estava chegando era o que deveria ter passado 40 minutos antes... No fim, consegui chegar em casa lá pelas 19h30 sendo que saí do trabalho às 16h15.

Hoje quando acordei às 6h vi as ruas tapadas de neve e conferi a temperatura: -4°C. Saí de casa aí pelas 6h40 e fui pra estação de bicicleta, como faço todos os dias, mas depois de quase cair umas 4 vezes me dei conta que não posso mais pedalar na mesma velocidade. Estava preocupado pois achei que ia perder o trem das 7h02 já que normalmente chego em cima da hora quando pedalo rápido, mas consegui chegar aí pelas 7h na estação.

Caos!

A estação estava abarrotada de gente, e achei estranho que o trem para Copenhague ainda não tinha chegado. Quando olhei a tela com os horários me espantei: os trens que estavam parados na estação estavam por volta de 1h atrasados! Era gente correndo pra lá e pra cá, ainda mais que com o COP15 em Copenhague tem um monte de gente que ficou hospedada do lado sueco e estava perdida com a confusão. E que confusão: tinha casos em que o mostrador da estação dizia um destino, no trem dizia outro destino e nos alto-falantes era anunciado um terceiro destino; a janela do maquinista estava aberta e eu perguntei pra ele pra onde o trem ia e ele me disse que nem ele sabia. Ouvi um relato de um cara que estava saindo de um trem e estava puto da vida porque o trem ficou meia-hora parado no meio do nada e voltou para a estação porque o maquinista falou que não tinha idéia pra onde ele deveria ir e mandaram ele voltar.

Enquanto isso o horário do meu trem ia mudando: o que tinha que ter saído às 6h20 estava previsto para 7h15... 7h20... 7h25... 7h30... Achei uma funcionária da Skånetrafiken, a companhia que cuida dos trens, e perguntei porque os trens estavam todos atrasados e ela me disse que a ponte tinha ficado fechada por 1h por causa da neve e por isso os horários agora esculhambaram todos. Eu pensei comigo mesmo: tchê, se fosse no Brasil tudo bem, mas eles aqui não têm neve todos os anos? Será que a essas alturas eles não têm um planejamento à altura quando neva? E o que é pior: a estação em Malmö está sendo reformada, porque é muito pequena e está sendo aumentada, e por causa disso apenas 3 trilhos dos 12 que existem estão funcionando. Imaginem só organizar aquele monte de trens atrasados com apenas 3 lugares na estação! Por isso que estava uma confusão só, eles estavam cancelando alguns trens e mudando o destino de outros para tentar normalizar o tráfego mas entre os passageiros e funcionários era um caos só.

No fim chegou um trem que ia para Copenhague mas era tanta gente que o trem entupiu e eu não consegui entrar. Tive que esperar um outro que chegou depois, mas pelo menos consegui um lugar pra sentar. (O pessoal que pegou na próxima parada não teve tanta sorte, porque o meu trem superlotou também.) No fim eu saí de Malmö depois das 8h, quando eu devia ter saído às 7h02. Pensei que em Copenhague as coisas iriam estar melhores, mas me enganei: todos os trens lá também estava atrasados; tive que esperar quase 30 minutos pelo meu trem que deveria passar de 10 em 10. Já estava me conformando que quando chegasse em Ballerup teria que caminhar 25 minutos até o trabalho porque eu não ia chegar a tempo de pegar o último ônibus que passa às 9h08. Desci em Ballerup aí pelas 9h25 e estava começando minha caminhada sob neve e frio de -4°C quando vi o ônibus (atrasado) chegando na parada. Ufa! Pelo menos alguma coisa tinha que dar certo.

No fim cheguei no trabalho às 9h40, 3 horas depois de sair de casa. Lembrem, isso é primeiro mundo...

E amanhã vai ser pior: por causa da visita do Obama a ponte vai ficar fechada na hora do rush, entre 7h30 e 8h30 durante a manhã e 16h30 e 17h30 à tarde. Já avisei aqui que vou trabalhar de casa. Tá doido!

Atualizado: E pra voltar pra casa hoje mais 3h15. Para terem uma idéia de como ficou o trânsito com a neve, o ônibus que eu pego pra ir do trabalho à parada do trem que normalmente leva 5 minutos hoje levou 1 hora e 5 minutos. No fim trabalhei hoje 6 horas e gastei 7 para ir e voltar.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Coisas ruins da Suécia

Como ultimamente tenho só metido o pau no Brasil, resolvi mudar o discurso um pouco e falar sobre as coisas que são ruins aqui na Suécia. Afinal, sou democrático. :-)
  • Serviços e atendimento em geral: Aqui na Suécia a desigualdade é bem menor, não há aquele abismo salarial entre os que ganham muito e os que ganham pouco. Isso significa que ninguém ganha um salário de fome, e que contratar alguém pra fazer qualquer serviço, por mais simples que seja, não é barato. Conseqüência: as lojas, supermercados, bancos, bares e tudo o mais vão ter o mínimo de funcionários possíveis.

    Canso de ir no supermercado, gastar 5 minutos para comprar 2 ou 3 itens e ficar 30 minutos na fila porque dos 15 caixas do mercado apenas uns 4 ou 5 estão abertos. Não há empacotadores, claro, e tenho que ensacar as coisas com pressa porque caso contrário vão chegar as coisas do próximo cliente e tenho que desocupar o espaço. Não há separação de funções, as mesmas pessoas que trabalham no caixa fazem outras coisas no mercado também, assim se o movimento é pouco o funcionário sai do caixa e vai fazer outra coisa.

    Isso significa também que se for possível colocar uma máquina para fazer o serviço, vão fazer. Por exemplo, para comprar passagens de ônibus e trens, ou renovar o cartão, usa-se máquinas; para retornar as garrafas ou latas no mercado, usa-se máquinas; e por aí vai.

    Como já é caro pagar o salário normal, hora extra então nem pensar. Se chegar numa loja 5 minutos antes de fechar e estiver interessado em comprar alguma coisa, quando chegar na hora de fechar vão avisar que estão fechando a loja e praticamente te expulsar do lugar. O tempo deles vale tanto quanto o teu, então se quiseres ser atendido com calma chegue antes!

  • Filas: Conseqüência do item acima. Como a maioria dos lugares terá poucos atendentes, sempre há fila e não espere atendimento rápido. Para terem uma idéia, sabem aquela maquininha onde se aperta um botão e a máquina cospe uma senha? Foram os suecos que inventaram.

    Uma das coisas que mais me dá raiva é quando saio à noite em algum pub ou discoteca e vou no balcão comprar uma cerveja. Muitas vezes leva-se 20 minutos para ser atendido! Há apenas uma ou duas pessoas no balcão, e não existe o esquema do cartão como no Brasil onde só se marca um X, então o processo é assim: o cliente pede um drink qualquer, o atendente vai lá fazer, uns 5 minutos depois ele traz o drink, o cliente entrega o cartão de crédito, o cara do bar vai lá na máquina, digita algumas coisas, espera mais um minuto para processar, pega o recibo, devolve pro cara assinar, pega o recibo, coloca junto na pilha com os outros, e só aí atende o próximo cliente. Imagina quanto tempo não leva para atendar umas 30 pessoas esperando no balcão.

    Aqui enquanto um atendente atende um cliente, ele nem olha pros lados: os outros clientes não existem. Se fosse no Brasil, o atendente enquanto faz o drink ou espera a máquina processar o cartão já pede pro próximo cliente o que ele quer e se for algo simples como uma lata de cerveja já vai atendendo para agilizar. Esperar tal jogo de cintura de um sueco é perda de tempo.

  • Escuridão no inverno: Muitos dos meu amigos no Brasil me perguntam: “como tu agüenta morar naquele frio?” mas na verdade aqui no sul da Suécia não é tão frio assim. O inverno é bem mais comprido do que o do RS, obviamente, mas não é muito mais frio não. Além disso, o frio é só quando se está na rua porque qualquer lugar fechado (inclusive ônibus e trens) possui calefação e daí a temperatura é bem agradável, lá por volta de 20°C.

    Agora, a escuridão é um pé no saco. Como Malmö fica a 55 graus de latitude, há muita variação na quantidade de luz entre o verão e o inverno. Enquanto que no verão o sol nasce aí por umas 4 da manhã e se põe quase à meia-noite, no inverno o sol nasce aí pelas 8h30 e se põe às 15h30. Considerando também o fato de que muitas vezes fica o tempo todo nublado, é perfeitamente possível que 1 ou 2 semanas passem sem que seja possível ver a luz do sol. Preciso falar que é deprimente?
  • Öresundståg: Eu achava que os trens da Suécia funcionavam bem. E funcionam, isso se não precisar andar neles todos os dias. De uma maneira geral eles são pontuais, mas vira e mexe eles atrasam, estragam, dão pane, ou coisa parecida. O Öresundståg, o trem que eu pego todos os dias para atravessar a ponte que liga a Suécia com a Dinamarca seguido dá problema. A demanda é muito grande, e não podem colocar mais vagões porque a plataforma na estação de Malmö é pequena (estão reformando a estação justamente para resolver isso), então muitas vezes o trem vai completamente lotado. Quem é de Santa Maria e já pegou um ônibus lotado para a UFSM, saiba que às vezes o trem aqui é pior. Às vezes o trem aparece só com metade dos vagões, ou é cancelado e daí o próximo vai com o dobro de gente, um caos. Isso se não der um problema qualquer na metade do caminho e todo mundo tiver que descer.

    Esses problemas não acontecem todos os dias, mas pelo menos 1 ou 2 vezes por semana dá algum imprevisto. Para quem pega trem todos os dias, é um stress. Não é à toa que li no jornal aqui que o serviço de trens é um dos que teve a pior avaliação numa pesquisa feita junto à população. Ao contrário do que se pensa no Brasil, nem tudo funciona perfeitamente no primeiro mundo.

  • Os suecos não são acostumados a gentilezas: Como falei antes a desigualdade na Suécia é bem menor, inclusive entre os sexos, pessoas de idade e tudo mais. Todos se respeitam mas isso significa também que não há tratamento diferenciado: aqui não há, como no Brasil, fila para idosos ou esse tipo de coisa. Isso por si só não é ruim, mas exatamente por isso não são acostumados a receber gentilezas ou favores: eles não sabem muito o que fazer quando alguém deixa eles passarem na frente na fila do mercado porque tem só 1 ou 2 itens, ou quando se cede o lugar no ônibus para alguém mais de mais idade (alguns se ofendem, inclusive). E olha que isso não aconteceu só comigo. Eu entendo o ponto de vista deles, de que não precisam de favores, mas acho que cada vez que alguém tenta ser gentil o mundo melhora um pouquinho. Não mata nem diminui ninguém.

  • Os suecos são um pouco fechados demais pro meu gosto: Isso não é exclusividade deles, é uma característica do povo escandinavo em geral. Tá certo que não estou sendo muito justo com eles porque eu, sendo latino, vou achar qualquer povo não-latino fechado mas às vezes dá um pouquinho nos nervos. Essa piadinha que achei é bem engraçada:
    Dois dinamarqueses, noruegueses, finlandeses e suecos encalham em 4 ilhas distintas. Quando todos são finalmente salvos verificou-se que os dinamarqueses se tinham aliado na busca pela sobrevivência, os noruegueses estavam pescando e os finlandeses já tinham cortado as árvores todas da ilha. Os suecos, esses, ainda estavam à espera de alguém que os apresentasse.
    Tirei essa piadinha do blog de um português que foi morar na Suécia e também estranhou certas coisas. Vale a pena visitar os outros posts que ele fez sobre comportamento dos suecos.

  • Systembolaget: Na Suécia a venda de qualquer coisa com mais de 3% de álcool só é permitida na Systembolaget, uma loja do governo que só vende isso. Não é possível comprar no mercado (mas é claro que bares, danceterias, restaurantes também podem vender). Nos sábados a Systembolaget fecha às 14h (e não abre aos domingos), então se decidir beber de última hora está ferrado. E é melhor não ir com pressa aos sábados, porque vai estar lotado e a fila vai ser gigante. Nem vou comentar o preço, só vou dizer que um monte de gente vai até a Alemanha só para comprar bebida e trazer para a Suécia.

  • Festas que acabam às 3h: Todos os lugares fecham às 3h no máximo. Precisa falar mais alguma coisa?
Isso é o que consigo me lembrar no momento. Com certeza tem mais, quando me lembrar do resto faço um outro post.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

“Apaixonado por carro como todo brasileiro”

Lembram dessa frase nas propagandas da Ipiranga? Já faz algum tempo que quero blogar sobre uma diferença cultural que percebi quando vim para a Suécia, mas a preguiça nunca me deixou. Hoje vi um post interessante no blog Dinheirama e resolvi arregaçar as mangas e finalmente escrever sobre o assunto.

Tenho que confessar: nunca fui lá muito interessado em carros; carro para mim sempre foi um meio de transporte capaz de levar-me do ponto A até o B. Claro que é muito legal ter um carro bonito, lembro que no Brasil eu gostava muito do Peugeot 206 e é óbvio que gostaria de ter uma BMW ou Audi ou então uma Ferrari ou um Porsche (posso sonhar, não posso?). E eu gosto de dirigir, a primeira coisa que fiz quando completei 18 anos foi tirar a carteira de motorista.

Acontece que ter um carro pra mim nunca foi prioridade. Sem dúvida carro é um conforto, é bom ter, mas eu sempre achei que eu não precisava realmente de um. Eu podia pegar o ônibus para ir trabalhar, e ir de táxi para as baladas já que Santa Maria (RS) onde eu morava não é muito grande então as corridas de táxi são baratas. Eu achava que carro era um investimento muito caro, tanto para comprar como para manter (seguro, impostos, manutenção, etc.) e como pra mim não era algo indispensável eu preferia gastar o meu dinheiro em outras coisas que me traziam mais prazer ou até mesmo apenas guardá-lo, se mais tarde eu mudasse de idéia poderia dar uma entrada maior ou até mesmo comprar à vista.

Mas acredito que eu seja parte de uma minoria. A grande parte dos meus amigos comprou um carro assim que começou a trabalhar. Eu cansei de ter que responder à pergunta “e aí, quando vai comprar um carro?” a meus amigos e parentes e de ouvir “abre essa mão de vaca, deixa de ser pão duro e compra um carro de uma vez”. Obviamente devo ter algum problema. Quando eu respondia “ter um carro é legal, mas não tenho vontade de comprar um no momento” pela reação da outra pessoa eu imaginava que ela estava pensando em me internar num manicômio ou algo assim.

Demorei um tempo para entender que eu estava desafiando a ordem das coisas. Carro não é meio de transporte; é símbolo de status. Agora que tenho um emprego, tenho renda, não posso mais andar de ônibus. Tenho que ter meu próprio carro, uma afirmação da minha nova realidade sócio-econômica. Não interessa se tenho que financiar o carro em 99 prestações, se vou me apertar, com o carro eu sou diferente. Sou alguém. A prova disso é que muita gente compra um carro sem ter a mínima condição para tanto. O post que mencionei acima aborda exatamente isso:

Nem todo mundo pode ter um helicóptero. Engraçado, uma afirmação deste tipo raramente gera algum tipo de discussão - particularmente, nunca vi alguém discordar. O raciocínio por trás da verdade parece óbvio: um bicho desses custa uma fortuna, logo, só os muito ricos podem comprá-lo. Pois é, mas "antes fosse só isso", como já vi alguns deles dizerem. A questão está no custo de manutenção e nas agendas de reparo, afirmam também revistas especializadas.

Mas por que falar de helicópteros por aqui? Claro que estou longe de tal sonho, portanto o tema não tem relação nenhuma com a minha realidade. A verdade é que eu resolvi trazer tal afirmação para nosso dia a dia, tentando adaptá-la: tenho dito com frequência que nem todo mundo pode ter um carro.


Isso acontece freqüentemente também:

Tão logo o carro sai da concessionária ou loja e vai parar na garagem, algo mágico acontece em torno das finanças de muitas famílias: o automóvel se transforma em helicóptero. Quem paga o combustível do dia a dia? E o seguro, o IPVA, a troca de óleo, o pedágio, a manutenção preventiva (revisão), a troca de pneus, os pequenos reparos, o estacionamento, a lavagem? Advinhe o desfecho: a família deixa de priorizar momentos de alegria, qualidade de vida e bem-estar porque as despesas e o pesado carnê estrangulam suas finanças. Por 36, 48, 60, 72 meses.


E continua:

Se não for assim, o brasileiro não consegue comprar! Adoro ouvir frases como essa. O som das palavras é entusiasmado, repleto de sentimento e emoção. São justificativas vazias. E só. Na prática, o que acontece é muito diferente: o valor do carro, inflado pelos juros do financiamento a perder de vista, soma-se ao mundo de contas e despesas e, muitas vezes, o caos se instaura. A razão de alegria vai ficando encostada, mal tratada, perdendo muito de seu valor.

O conforto antes proporcionado se converte em carnês atrasados, impostos devidos e falta de manutenção. Com peças do mercado paralelo, a segurança começa a ficar comprometida e os passeios já não são tão divertidos. O carro enguiça, para no meio da serra e exige destreza quando seus pneus, completamente carecas, insistem em complicar a direção na chuva. Mas, é claro, o que importa é que a família tem um carro, ou melhor, um helicóptero. Imagine a cara dos vizinhos olhando para aquele bicho estacionado logo ali...


Hum... Preste a atenção na frase: ”Imagine a cara dos vizinhos olhando para aquele bicho estacionado logo ali”.

Tem mais:

Você já deve ter se dado conta de que sou daqueles que compra à vista, com desconto. Compartilho a breve narrativa da compra de meu automóvel atual, nos idos de 2007. Eu tinha cerca de R$ 45 mil para comprar o carro, guardados e poupados com muito trabalho. Ao analisar as opções, tarefa que levou 6 meses, optei por um carro de pouco mais de R$ 40 mil (completinho). Com a grana que tinha pude pagar o licenciamento, seguro, imposto etc. Ao contar feliz a novidade para os amigos, ouvi: "Burro, devia ter usado a boa grana como entrada e sair com um carrão bem melhor. Ou podia ter pego um usado importado ou de uma categoria acima, muito melhor também". Brindei ao burro e todos rimos bastante. O resto é história.


Bingo! Ele é burro, porque o correto é desfilar com o melhor carrão possível. Não interessa se não vai ter dinheiro para mais nada, nem para manter o carro, o que interessa é que é um carrão, que é de uma categoria acima.

Veja bem, não estou dizendo que todo mundo tem que andar de Fusca, nem criticando quem quer ter um carro bom. Quem não gosta de andar bem vestido, ou ter móveis bonitos no apartamento, ou um relógio legal? Tudo isso também é símbolo de status, afinal. E cada um gasta seu dinheiro da forma que melhor lhe convém. Só estou constatando uma realidade: a preocupação com o carro e o status no Brasil é muito grande (não só no Brasil, nos EUA também, mas só posso falar da realidade que conheço). Veja só, em outro post no mesmo blog:

Tratar da compra de um automóvel é assunto que sempre me traz muitos problemas. Por que? Ora, a matemática aplicada aos recursos disponíveis pelas famílias comprova, em muitos casos, que a compra do carro não é uma atitude saudável. Em alguns casos, tal gasto não é sequer necessário. Mal termino de demonstrar os efeitos da compra e os ruídos começam.

A fala ensaiada "Mas o crédito hoje em dia facilita a compra do carro. Afinal, agora podemos parcelar usando juros mais baixos e através de prestações também mais em conta" é uma das preferidas dos jovens loucos para ter um carro. O apelo "Usar o transporte público e andar de bicicleta são atos que envergonham meus filhos e acho que as prestações cabem em nosso orçamento" também é comum.


Guarde esta frase, vou comentar sobre isso depois: “Usar o transporte público e andar de bicicleta são atos que envergonham meus filhos”. No mesmo post:

Portanto, para o cidadão comum, carro não é investimento, não é ativo. Carro é passivo, é sinônimo de despesas e gastos extraordinários capazes de furar qualquer orçamento. Ah, e sem drama por favor. Isso é um alerta, não uma mensagem apocalíptica pregando a caminhada diária para o trabalho e dias de aperto no transporte público.

Se preferir, dou o recado de forma mais direta: há aqueles que, independente da oferta de crédito e do "chorôrô" da família, não podem ter um carro. Nem do mais simples e barato. Simples assim, muito embora muitas pessoas adorem vir até aqui e insistir nas patéticas desculpas que envolvem sociedade, cobrança, vergonha e orgulho. Interessante, humildade na compra do carro pouca gente gosta de discutir. Por que será?


Bom, já estou batendo demais na mesma tecla. Pra mim é escancarado que para muita gente carro é não apenas meio de transporte, mas símbolo de status e ascensão social. E muita gente faz o possível e impossível para ter um veículo que é totalmente incompatível com sua capacidade financeira, tudo pela oportunidade de mostrar o possante para o vizinho, ou para as gatinhas na balada, enfim. Para ser alguém. Porque quem anda à pé não pode ser alguém.

Mas aonde quero chegar? Quero fazer um paralelo com a Suécia.

Depois que vim para a Suécia fui exposto a uma cultura bem diferente. Uma cultura onde andar de ônibus ou de bicicleta não é vergonha nenhuma; pelo contrário, é totalmente encorajado. E aprendi com isso algumas coisas.

Na Suécia, é claro que as pessoas (estou falando de forma geral, não dá pra botar o povo todo de um país no mesmo saco e exceções sempre vão existir) também gostam de ter um carro legal mas não têm essa obsessão toda de comprar um carro acima de suas possibilidades. Nem de já sair comprando um carro só porque arranjou um emprego. Aqui, o povo compra um carro porque precisa ou tem as condições para isso. E muitos que têm carro mesmo assim vão trabalhar de ônibus ou de bicicleta.

Por que isso? Acontece que a Suécia é um país muito mais igualitário que o Brasil (não que seja muito difícil, o Brasil é um dos países mais desiguais do planeta) e não existe muito esse conceito de classe como existe no Brasil. Claro que há ricos e pobres, mas não é nem de longe o mesmo abismo. Não existe a preocupação de termos que nos diferenciar de, ou nos misturarmos com, a “classe que anda de ônibus”, da “classe que anda de bicicleta”.

Claro que um grande fator é que não dá para comparar a qualidade do transporte público. Os ônibus são limpos e silenciosos, em todas as paradas há a placas com as linhas e os horários (muitas delas são eletrônicas e mostram em tempo real quanto tempo falta para passar o ônibus) e os ônibus são na maioria das vezes pontuais. Se preferir pedalar, há ciclovias por todo o lugar, a maioria das calçadas tem espaço reservado para o tráfego de bicicletas, e quando não tem nenhum dos dois é perfeitamente seguro andar de bicicleta na rua porque todos os carros respeitam. (Em contrapartida é exigido que as bicicletas tenham buzina, luzes frontais e traseiras e refletores nas rodas. Se estiver andando na rua é obrigatório seguir todas as leis de trânsito, inclusive dando sinais de mão se for dobrar à esquerda ou direita. É obrigatório sempre dar preferência ao pedestre, se ele botar o pé na faixa tem que parar. Para tudo isso há multa para o descumprimento.)

Mas mesmo assim acho que grande parte do fator é cultural. Mesmo que no Brasil o transporte público fosse bom, e fosse seguro andar de bicicleta, será que seria normal ver gente engravatada no ônibus para ir trabalhar? Ver seu chefe chegando no serviço de bicicleta? Eu sinceramente tenho minhas dúvidas.

Aqui tudo isso é a coisa mais normal no mundo (acho que na Dinamarca mais ainda que na Suécia, vejam as fotos aqui das pessoas voltando do trabalho ou das bicicletas estacionadas na calçada). Já vi gente de terno e gravata pedalando. E esse comportamento é altamente estimulado pelos governos. Sabem por quê? Por uma realidade muito simples: as cidades não comportam que todo mundo tenha carro. Não há espaço. Não há lugar para todos.

Em absolutamente todos os lugares aqui tem que pagar para estacionar, e muitas vezes no centro não é nem possível passar de carro, o espaço é reservado apenas para pedestres (vide aqui e aqui). Estacionar é um problema, e os prédios não têm garagem: todo mundo têm que deixar o carro na rua (e pagar por isso, claro). No meu prédio há lugares na rua reservados, mas não para todos os apartamentos; o tempo médio de espera por uma vaga está em três anos.

Lembro que uma vez o Paulo Sant'Ana (pros leitores de fora do RS, é um famoso comentarista gaúcho) comentou que para ele um dos motivos do centro de Porto Alegre ser tão sujo e abandonado é porque carros não podem passar por ali, e que se isso fosse mudado o centro iria revitalizar-se. Na época concordei com ele, mas agora vendo os exemplos na Europa fui obrigado a mudar totalmente minha opinião. Isso que ele está pregando vai totalmente contra a direção que os países daqui estão tomando, e como eu conheço ambos os exemplos posso dizer sem medo de errar que o modelo daqui é muito melhor. Quanto menos carros, melhor fica.

Olhe o caos nas cidades brasileiras na hora do rush. A maioria dos carros tem apenas um ocupante. Faz sentido isso? Faz sentido o cara tirar o carro da garagem, gastar um tempão no congestionamento e gastar gasolina e poluir o ambiente para chegar no trabalho, estacionar e deixar o carro lá parado o dia inteiro ocupando espaço? Por que não investir no transporte público, por que não estimular as pessoas a ir de bicicleta e deixar o carro em casa?

Outro desestímulo é que os carros na Suécia não são nada baratos em comparação com o resto da Europa. Na Dinamarca é muito pior, tanto que eles consideram os carros na Suécia baratos. O imposto é caro, o seguro também. Ouvi falar que para tirar a carteira de motorista na Suécia, se o cara fizer todas as aulas teóricas e práticas, custa uns R$ 5.000. E para poder andar com o carro é obrigatório ter seguro que cobre terceiros, mas não aquele que protege você dos terceiros e sim o que protege os terceiros de você: se você bater e machucar alguém ou danificar alguma coisa a vítima está totalmente coberta pelo seu seguro. Não é como aqui onde se alguém é atropelado ou tem o carro danificado tem que torcer para o culpado ser rico e ter dinheiro para pagar, ou fica vendo navios.

Voltando à questão do status: no Brasil, ainda mais importante que ir trabalhar de carro é sair na noite de carro. Chegar na balada de táxi já não é visto como algo tão legal (se veio de táxi é porque não tem carro), e quem tem coragem de chegar de ônibus ou de bicicleta? Vai explicar pra alguém daqui que é popular no Brasil o povo se reunir num posto de gasolina para beber (!) e ficar exibindo as máquinas, quando não o sistema de som caríssimo e impor suas preferências musicais goela abaixo dos outros.

Aqui todo mundo vai na balada de ônibus ou bicicleta. Sabem por quê? Simplesmente porque é proibido beber e dirigir, é impensável, absolutamente ninguém faz isso. Já vi duas mulheres muito bonitas e bem vestidas indo embora da balada de bicicleta, uma pedalando e a outra na garupa. É normal. Na verdade até isso muita gente evita de fazer, porque se a pessoa for pega pela polícia andando de bicicleta com nível de álcool no sangue acima do limite ela tem que pagar multa e se tiver carteira de motorista é apreendida, como se estivesse dirigindo um carro. Táxi é uma opção para poucos porque é extremamente caro.

Por causa de tudo isso não faz muito sentido ter um carro só por causa do status, afinal o que adianta se não dá pra chegar de carro nas baladas e mostrar pras gatinhas? A menos que queira ir para a balada e ficar bebendo água... Já no Brasil a gente acha que o nosso direito de sair de carro na noite vale mais do que a vida das pessoas que a gente vai colocar em risco quando voltamos dirigindo bêbados para casa. Tudo pelo status.

Mas mesmo assim é claro que existem na Suécia as pessoas que têm dinheiro e compram um carro legal, acima da média. Sabem o que muitas delas fazem? Mandam tirar o nome do modelo ou a potência do motor da lataria, para não chamar atenção. Porque têm vergonha. Porque não querem passar uma imagem de que se acham superiores às outras. Porque não querem que as outras pessoas achem que elas compraram o carro só para aparecer.

Surpreendente, não é? Já imaginou alguém no Brasil pagando R$ 100.000 por um carro ou caminhonete e mandando tirar o nome e a potência da lataria? Quando ouvi essa história a primeira vez achei a maior bobagem do mundo, mas agora que estou aqui por quase 3 anos estou começando a entender melhor. Virando sueco, talvez?

Moral da história: aqui não se dá tanta bola para carro. Isso é uma conseqüência de que de forma geral ninguém dá a mínima para o que você tem, tanto que quem tem não quer demonstrar.

No Brasil ainda dividimos a sociedade em castas. Duvida? Você tem empregada? Conhece alguém que tem? Digamos que ela trabalhe 40h por semana na sua casa, você aceita pagar para ela 60% do que você ganha, pagar FGTS, décimo-terceiro, férias? Não? Acha um absurdo? E por quê? Por que você merece e ela não? Não será porque considera o seu tempo, seu esforço, mais importante do que o dela?

Será que tanta gente abomina o ônibus porque o serviço é ruim (e é ruim mesmo, todo mundo sabe disso) ou porque vai se misturar com os “comuns”, a casta dos sem-carro? Será que não se anda de bicicleta porque é perigoso (e é muito, realmente) ou porque andar de bicicleta não pega bem para alguém mais abonado? Eu acho que é uma mistura dos dois, e você?

E por que os governos não investem no transporte público, em ciclovias? Elementar, meu caro Watson: porque isso é considerado coisa de pobre. Não dá voto. A classe média não está preocupada com isso, diminuir o IPI dos automóveis é muito mais importante porque isso sim é progresso: dá pra todo mundo comprar carro em 99 vezes, mostrar pro vizinho o “modelo superior”, e ficar exibindo o possante por horas enquanto está trancado no congestionamento cheirando fumaça todos os dias e se achando superior a todos os outros pobres coitados que estão ali no ônibus ao lado e não podem comprar um carro. Enquanto isso, na Europa, as pessoas estão deixando os carros em casa e andando de bicicleta, ou misturando-se aos plebeus nos ônibus, e quase não há buzinas ou poluição, o trânsito flui, se chega muito mais rápido ao destino e durante a semana as ruas têm mais vaga para quem precisa estacionar. Sem falar que é mais barato. Coitados dos europeus, não sabem como é bom ir trabalhar de carro. É progresso!

Em Faxinal do Soturno, uma cidadezinha do interior do RS onde mora minha mãe e onde qualquer lugar está no máximo a 10 minutos à pé de qualquer outro lugar, as pessoas vão de carro trabalhar. Ou quando tem um evento no clube, ou um casamento na Igreja, todo mundo vai de carro, mesmo aqueles que moram a 2 quadras dali. Faz sentido?

Pensem nisso. E vou ficando por aqui, feliz, andando de bicicleta pra lá e pra cá... :-)

P.S.: Se você de alguma forma se encaixa no perfil aqui descrito e se ofendeu, por favor não interprete como uma crítica pessoal. Cada um faz o que quiser com seu dinheiro. Só estou fazendo um questionamento à cultura do carro como símbolo de status, à obsessão das pessoas em ter um em detrimento à sua própria saúde financeira, ao achar que carro é sinônimo de progresso. Pense no que escrevi e tire suas próprias conclusões. Os comentários estão abertos pra quem concorda e discorda. Obrigado.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Anvil! A história de Anvil

Anvil é uma banda de heavy metal do Canadá que influenciou várias bandas como Metallica, Guns n' Roses, entre outras. Eu pessoalmente não conhecia a banda mas resolvi assistir ao documentário Anvil! A história de Anvil porque me disseram que era muito bom.

O veredito: você que estiver lendo isto, mesmo que você odeie heavy metal, mesmo que você só escute pagode, mesmo que você odeie documentários, assista a esse. Não vai se arrepender, prometo. É excepcional. Impossível não se emocionar.


(Assistir no YouTube)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O homem por trás do mito

O homem por trás do mito:



(Link para o vídeo)

Sem chance nenhuma

Quem me conhece sabe que vira e mexe estou criticando o Brasil. Não o faço porque agora moro no exterior e quero dar uma de esnobe, pelo contrário: só depois de vir para o exterior que eu comecei a valorizar um monte de coisas que o Brasil tem e eu não dava muita bola. E só aí me dei conta do potencial que o Brasil tem, e não aproveitamos; como poderíamos ser uma das maiores nações da Terra, e não somos.

Todo mundo sabe que é muito mais fácil de enxergar os problemas quando são vistos de fora. Por isso que existem consultores de empresas; por isso que a gente quando não sabe o que fazer (seja no emprego, relacionamento, questões familiares) pede conselhos a pessoas de fora. E é por isso que eu gosto de ler blogs de estrangeiros que moram no Brasil e escrevem sobre o nosso país, pois eles vêem tudo de uma outra perspectiva. Perspectiva essa que geralmente é mais objetiva e menos influenciada por questões culturais, partidárias, etc.

Infelizmente o brasileiro tem um problema grave, que é de não aceitar críticas vindas de um estrangeiro. Sabemos que temos milhares de problemas, falamos mal do próprio país todo o dia, mas quando um estrangeiro diz o que estamos cansados de saber daí parece que caiu o mundo. E não sou eu que estou falando: Rachel, uma nova-iorquina que morou no Rio, já escreveu sobre isso duas vezes (em inglês) e concordo plenamente com ela. O caso mais recente foi do Robin Williams que fez piada sobre as Olimpíadas no Rio; eu pessoalmente achei a piada bem sem graça mas a imprensa toda caiu de pau dizendo que o ator foi viciado em cocaína (qual a relevância disso?) e o Comitê Olímpico Brasileiro quer processá-lo. Façam-me o favor! Em vez de se preocuparem com uma piada sem graça, por que não se perguntam o que leva um comediante a fazer uma piada assim? Será que não é porque a imagem do Rio estar associada a prostitutas e drogas? Lembro do episódio dos Simpsons no Brasil que também deu o que falar alguns anos atrás: os Simpsons passaram mais de 20 anos criticando o modo de vida americano (de forma ácida e dura muitas vezes), fazendo piada de ingleses, franceses, etc. e todo mundo achava engraçado mas quando fazem piada do Brasil daí é demais! E também foram ameaçados de processo por alguém do Rio na época. Coitadinhos dos políticos, tão sensíveis... Mas não são só os políticos, o brasileiro em geral só gosta quando os estrangeiros falam bem do país (os clichês de sempre: clima, praia, carnaval, mulheres, festas), mas torce o nariz quando ouve qualquer coisa que possa remotamente ser uma crítica.

Mas estou desviando do assunto. O objetivo do post é outro. Estava dizendo que gosto de ler a opinião dos estrangeiros, principalmente as críticas, porque acho elas mais objetivas e verdadeiras (o que não significa que sempre estão corretas ou sempre concordo com elas) já que vêm de alguém de fora que enxerga as coisas de outra perspectiva. E li duas coisas recentemente que achei tão perfeitas e verdadeiras que quero mencioná-las aqui.

A primeira foi um post que comenta a opinião de Richard Feymann, um físico ganhador do prêmio Nobel que deu aula na Academia Brasileira de Ciências entre 1951 e 1952, sobre o ensino de ciências no Brasil. Peço encarecidamente que pare de ler este meu post agora e clique no link aí do começo do parágrafo, leia o texto e depois volte pra cá. Não tenho pressa, posso esperar.

Leu? Que bom.

A segunda coisa foi em um blog que assino, de um porto-riquenho que mora no Brasil. Em um dos posts ele escreve, em inglês, sobre o sonho de muitos brasileiros de fazer faculdade e passar em um concurso e porque ele considera que todo esse processo é um atraso. Tem tantas verdades ali que me obriguei a reproduzir o post, traduzido em português:



Sem chance nenhuma
3 de dezembro de 2009

Pergunte a um brasileiro o que ele pensa que vai trazer a ele uma vida melhor e ele pode responder duas coisas: estudar na universidade e um emprego público. O problema é que os processos que as pessoas têm que seguir para conseguir ambas as coisas condenam a sociedade brasileira à mediocridade.

O primeiro é o vestibular, o teste anual conduzido por qualquer universidade para admitir candidatos. Nos EUA os estudantes são julgados pelas notas no SAT [teste parecido com o nosso vestibular], cartas de recomendação, ensaios musicais, serviços comunitários, e é claro, as notas na escola. No Brasil, tudo se resume ao teste e sua capacidade de superar os outros estudantes. Pelo que posso dizer dos exemplos que vi, esses testes não medem a inteligência, capacidade de raciocínio ou de resolver problemas. Isto é evidente pelo fato que o vestibular testa os candidatos em tópicos irrelevantes (dependendo do curso); por que um candidato ao curso de filosofia tem que ser testado no seu conhecimento de química? Uma prova recente tinha uma lista absurdamente longa de matérias: português, matemática, história, física, geografia, química, biologia e inglês.

Um desempenho bem sucedido no vestibular envolve três coisas. Primeiro, você deve ser capaz de decorar. Se você não consegue gravar e reproduzir fatos e fórmulas, o vestibular é um desafio impossível. Segundo, é melhor que você consiga regurgitar os quatro anos do ensino médio [não seriam três, ou agora mudou?] se você passar de seis meses a um ano em um cursinho pré-vestibular. Isso gira uma enorme quantidade de dinheiro na economia brasileira, e o estudantes, chamados de "feras", estão preparados como atletas correndo uma prova de 100 metros rasos. Terceiro, e finalmente, estudantes de escolas particulares têm uma vantagem óbvia sobre seus colegas de escolas públicas. Não apenas as escolas particulares são melhores como podemos assumir que seus pais serão capazes de pagarem para fazer o vestibular em meia dúzia de universidades, mais os cursinhos necessários.

O resultado é simples: estudantes que freqüentaram escolas particulares vão melhor no vestibular e acabam nas universidades públicas (que no Brasil são gratuitas), e estudantes de escolas públicas nas particulares (que são pagas). É uma generalização, claro, mas a verdade é que um estudante de um bairro pobre provavelmente vai freqüentar uma escola pública que não o educa de forma adequada, além de que ele não pode pagar um cursinho nem pagar por meia dúzia de vestibulares. Suas chances de sucesso são pequenas. Sua única opção (assumindo que ele tem uma) é trabalhar para pagar a mensalidade em uma universidade privada. De novo, estou ciente que essa é uma generalização e sempre existirão exceções à regra.

Como resultado, o Brasil tem visto um surto de abertura de novas universidades particulares, muitas das quais são como os community coleges dos EUA ao invés de instituições privadas como Cornell. Surpreendentemente, 9 em cada 10 instituições de curso superior são privadas, absorvendo 75% de todos os estudantes brasileiros. A certificação dessas faculdades/universidades é um grande problema, já que em Recife há uma dessas em cada esquina... mas esse é um assunto para outro dia.

Dando crédito ao Brasil, um esforço tem sido feito para quebrar esse ciclo vicioso com a criação do ENEM. Este exame parece ser mais focado nos básicos: língua, matemática e capacidade de raciocínio. Também permite que os estudantes paguem apenas por um teste que é reconhecido por uma longa lista de universidades. É um passo na direção certa, onde as capacidades natas do estudante têm um peso maior do que a capacidade de memorização ou possibilidades financeiras. Entretanto, há uma reviravolta digna de novela (este é o Brasil, afinal). O teste do ENEM vazou, e enquanto um segundo teste foi feito e agendado, algumas universidades decidiram não aceitar o seu resultado. Talvez será melhor no ano que vem e eventualmente o teste vai "pegar". Até lá, os estudantes se preparam como velocistas, correndo em direção ao vestibular mas sem se preparar para a maratona (ou seja, a vida). Ah, e os pobres estão correndo descalços.

A segunda praga é o concurso. É espantoso para mim, sendo estrangeiro, pensar que o governo julga os candidatos baseados em um teste ao invés do currículo, educação, entrevistas e cartas de recomendação. Mas isto é perfeitamente normal no Brasil. Alguns podem argumentar que o propósito é deixar o processo objetivo, e este é um objetivo nobre. A realidade, entretanto, é que essas oportunidades acabam sendo aproveitadas não necessariamente pelos mais capazes ou inteligentes, mas por aqueles que aprenderam a jogar o jogo.

Até aqui você provavelmente consegue adivinhar dois requisitos. Memorização é obviamente um deles, pois se espera que você memorize uma quantidade infinita de conhecimento sobre qualquer vaga que estiver competindo. O segundo, como o vestibular, é a capacidade financeira do estudante para pagar os cursos preparatórios. O terceiro requisito é persistência, que é admirável como um conceito abstrato, mas passa a ser somente uma outra forma de burlar o sistema: se você fizer o concurso várias vezes, eventualmente irá passar, certo? E então uma outra indústria surge, "educadores" que passam o tempo ensinando em cursos para preparar aqueles que vão fazer os concursos. Existe até um famoso blogueiro brasileiro que pegou sua "persistência", de mais de 15 concursos, e a tornou famosa na Internet.

Novamente, aqueles que não podem pagar por cursos preparatórios vão ficar em desvantagem, já que o processo é focado em memorização e repetição ao invés de inteligência, resolução de problemas ou raciocínio. Esses concursos do governo exigem que se pague uma taxa, o que significa que sua "persistência" também depende de bolsos grandes, assim você pode ficar pagando por teste atrás de teste.

Aqueles que têm sucesso no concurso vão conseguir um emprego confortável, que paga mais que o equivalente no setor privado e é quase uma posição de tenure [algo parecido à nossa estabilidade]. Eles ganharam a corrida e agora podem sentar e relaxar pelo resto de suas vidas.

Pelo menos há consistência: o sistema do vestibular não é muito diferente do sistema do concurso. Alguém que "treinou" o suficiente para o vestibular provavelmente está apto para "treinar" para os concursos.

Mas deixa um monte de brasileiros sem chance nenhuma.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Chega de ficar a pé

Recuperei a bicicleta, depois de ter ela confiscada por estacionar em local proibido. Tive que ir até o depósito onde a coitadinha ficou no relento passando frio e chuva por mais de uma semana e pagar uma multa de aproximadamente R$ 60 pra deixar de ser otário.

Infelizmente vou ter que comprar outro cabo de aço, porque o que eu tinha foi cortado pra recolher a bicicleta. :-(

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Cadê minha bicicleta?

Vou sempre de bicicleta até a estação central em Malmö pegar o trem para ir trabalhar na Dinamarca. Sempre deixo ela na frente da estação, no meio de dezenas de outras que são deixadas ali. Quando voltei hoje do trabalho, fui na frente da estação e cadê minha bicicleta? Não só a minha, mas todas as outras tinham sumido!

Descobri que era proibido estacionar bicicletas ali e a prefeitura recolheu tudo! :-(

Eu não fazia idéia, porque desde que me mudei pra Malmö sempre vi um monte de bicicletas ali então achei que não era problema. Agora parece que vou ter que pagar uma baita multa pra ter ela de volta, sem falar que provavelmente vou ter que comprar trancas novas (imagino que devem ter estourado as trancas pra recolher a bicicleta).

Tentei ligar para a prefeitura pra descobrir o que tenho que fazer mas só atendem em horário comercial. Até lá, estou a pé. Que m...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Uma das coisas boas da Suécia é...

...pagar menos de R$ 100 por mês pra ter uma Internet banda larga de 100 Mbps em casa.

A gente sabe que é nerd quando...

(Atenção: post nerd.)

Vão fazer quase 3 anos que comprei meu notebook sem querer querendo. Gosto muito dele, nunca deu nenhum problema fora um pente de memória que estragou um mês depois da garantia terminar, e sempre supriu minhas necessidades. Exceto por uma coisa: ele suporta no máximo 2 GB de memória RAM.

Um dos meus hobbies prediletos é a fotografia. Sempre que posso tiro fotografias de paisagens, e quando possível gosto de fazer panoramas. Acontece que juntar mais de 10 fotos de 12 megapixels cada uma em um computador com apenas 2 GB de RAM não é uma coisa lá muito agradável. E abrir o arquivo resultante em formato TIFF com 120 megapixels ou mais no Photoshop para ajustes nem se fala!

Outra coisa que me incomodava um pouco é que os discos de notebook são lentos, de 5.400 RPM. Isso também atrapalha bastante quando se trabalha com fotos grandes.

Na verdade nem sei por que comprei um notebook. Ele muito raramente sai da minha casa, então não preciso da mobilidade. Um computador de mesa equivalente custa muito mais barato.

Cheguei à conclusão que era hora de comprar um computador novo, de mesa desta vez. Um que me sirva pelos próximos 3 anos, pelo menos. Mas claro que não posso simplesmente comprar um; tenho que montar um. Ou senão qual é a graça? :P

(Atenção: o resto do post é 100% nerd e pode provocar enjôo em pessoas normais. Estão avisados.)

Bom, tive que dar uma pesquisada, pois estava totalmente por fora do mundo do hardware — até porque não é algo que me interessa muito, geralmente só me informo quando preciso comprar alguma coisa. Achei que o melhor custo/benefício pra mim era essa arquitetura nova P55 da Intel com um processador Core i7 Lynnfield. Ela não é tão poderosa quanto a X58 mas é mais barata e no uso normal dá quase na mesma.

Bom, o computador que montei é esse aqui:
Um pouquinho melhor que o notebook...

A gente sabe que é nerd quando sente prazer em abrir o Task Manager e ver isso: