2007-08-03

TAM JJ 3054 (2)

Fico indignado de ler as notícias sobre o acidente da TAM no Brasil. É CPI investigando pra cá, é Polícia Federal investigando pra lá, é Polícia Civil de São Paulo investigando pro outro lado, é conteúdo da caixa preta vazando...

Não aprendemos nada desde o acidente da Gol.

Assim como naquele acidente, a primeira coisa foi querer achar culpados. Vamos culpar os americanos! Não, foi o transponder! Foram os controladores! Não, foram os equipamentos! Foi o TCAS! E por assim vai. Agora foi a pista, quero dizer, o governo, quero dizer, o piloto, quero dizer, a TAM, quero dizer, o reverso, quero dizer, a Airbus...

Normal que num momento de comoção logo depois de um acidente a opinião pública e a imprensa estejam atrás de uma explicação. Ou melhor, de um culpado. Surgem teorias e explicações simplistas que tentam achar um bode expiatório na história. Até aí tudo bem, é compreensível. O que me indigna são as autoridades, na ânsia de mostrar serviço, iniciarem investigações buscando responsabilizações criminais.

Isso não é assim em nenhum lugar do mundo. Acidente aéreo não é crime. Não há culpados.

Sei que isso pode parecer difícil ou até mesmo desrespeitoso para quem perdeu parentes ou amigos em uma tragédia dessa. Mas por favor, acompanhem meu raciocínio. Já se tornou até clichê dizer isso, mas um acidente aéreo não acontece devido a um único fator. Existem vários sistemas e procedimentos redundantes, e para algo dar errado várias coisas têm que acontecer ao mesmo tempo.

Voar de avião só e seguro porque toda a indústria aeronáutica é obcecada com a questão da segurança. Aviões têm sistemas redundantes, têm manutenção constante e cada vez que se troca um parafuso em um avião isso é registrado e o novo parafuso tem que ter sido homologado. Em terra existe toda uma infra-estrutura para dar suporte aos aviões enquanto eles estão no ar. E mesmo assim, às vezes, acontecem acidentes.

Pois bem, quando há a infelicidade de acontecer um acidente aéreo uma equipe de investigação técnica é formada para estudar minuciosamente o evento. Na maioria das vezes essa equipe é acompanhada por pessoal de outros países e do fabricante da aeronave em questão. O objetivo dessa equipe é desvendar exatamente o que aconteceu e identificar todos os fatores que contribuíram para o acidente. Não é objetivo dessa equipe apontar culpados nem atribuir nenhum tipo de responsabilidade civil ou criminal, mas sim levantar o que deu errado: falha humana, nos equipamentos, procedimentos, etc.

E por que isso é feito assim? Ora, os fatores que contribuíram para um acidente podem estar acontecendo em outros lugares. Aeronaves podem ter defeitos de projeto. Procedimentos podem ter falhas. Um equipamento pode ser confuso de operar e induzir o operador a erros. É imperativo descobrir exatamente o que deu errado para evitar que isto aconteça novamente. Para ser possível identificar esse tipo de coisa, é imprescindível a cooperação de todos em uma investigação: controladores, funcionários de aeroportos, do governo, da companhia aérea. É preciso analisar os pedaços da aeronove, caixas-pretas, registros de manutenção, manuais, procedimentos. A maior parte dessas informações está na mão da companhia aérea ou do governo.

O que acontece quando o governo, ou as companhias aéreas, ou outros envolvidos que possuem as informações-chave para desvendar um acidente podem ser apontados como culpados ou responsabilizados?

Simples, eles vão começar a ocultar informações. Ou alterar documentos. Ou destruir evidências. Afinal, ninguém quer cavar a própria cova. E a investigação vai ser prejudicada, e provavelmente as reais causas nunca serão encontradas.

Por isso que é de praxe no mundo inteiro que uma investigação de acidente aéreo seja feita por técnicos independentes, acompanhados por observadores e fabricantes dos equipamentos. Depois de uma análise minuciosa que leva vários meses eles vão gerar um relatório que vai identificar as falhas e dar sugestões com melhorias, seja em equipamentos ou manuais ou procedimentos. Evita-se assim que aconteça um novo acidente causado pelo mesmo motivo (ou motivos).

Na esmagadora maioria dos acidentes aéreos não há crime. Exceto casos como atentados ou flagrante negligência. O que há são pequenos erros que se somam.

Mas no Brasil já se começa torto. Mal os corpos esfriam e a polícia já começa uma investigação. Quer culpados. Se abre uma CPI. E lá vão deputados, senadores, policiais, políticos em geral, todos experts em aviação dando suas opiniões e fazendo julgamentos, apontando causas e culpados. Fora saciar a fome da imprensa e do povo, que bem isso faz?

Afinal, as vítimas estão mortas. Nada vai trazê-las de volta. E a partir daí, o que é mais importante? Achar culpados, mandar pessoas pra cadeia, mas comprometendo a investigação? Ou descobrir tudo que seja possível sobre o acidente, com a cooperação de todos, buscando corrigir eventuais falhas e evitando que nova tragédia se repita, mesmo que o preço a pagar por isso seja que ninguém seja criminalmente responsabilizado?

Atualizado em 3/ago: não fui muito claro em alguns pontos, então fiz mais algumas colocações nos comentários.