2007-09-11

København

As últimas semanas têm sido extremamente puxadas aqui na Spidexa. Estamos cada vez mais próximos de finalmente lançar o produto, e muitas coisas que ainda faltam fazer. Eu pessoalmente não tenho trabalhado menos do que 12 horas por dia. Para dar uma desestressada, eu e o Andrigo resolvemos viajar neste último sábado para Copenhague (København para os dinamarqueses). Embora tenha descido em Copenhague quando cheguei do Brasil, não cheguei a conhecer a cidade.

Decidimos de última hora, na sexta à tardinha (dia da pátria), que iríamos pegar o trem que saía às 6h02 da manhã de sábado e iríamos voltar no último trem do dia que voltasse pra Ronneby. Tive que acordar às 5 da madrugada (num sábado, coisa horrível!), e quase perdi o trem porque cheguei apenas alguns segundos antes dele partir.

Como estava muito sonolento, resolvi ir para outro vagão quase vazio onde eu poderia me esticar no banco para dormir. Não deu alguns minutos e comecei a ouvir duas pessoas falando português dentro do trem. Isso me chamou a atenção na hora, então eu levantei e saí a procurar quem eram aquelas criaturas até porque é bem raro achar brasileiros por estas bandas. Até que encontrei e perguntei se eram brasileiros (óbvio que eram) e me apresentei. Eram dois caras de São Paulo que trabalhavam na Ericsson do Brasil e estavam em Karlskrona (cidade vizinha de Ronneby onde tem uma filial da Ericsson) fazendo um curso, treinamento, ou algo assim. Como tinham os fins de semana livres, eles estavam passeando e iam descer em Malmö. Um deles inclusive já tinha morado em Porto Alegre. Ficamos conversando por umas duas horas até que eles desceram.

Depois disso, duas suecas que estavam sentadas na minha frente durante todo o tempo que fiquei conversando com os brasileiros resolveram perguntar de onde eu era. Achei isso bem estranho, porque os suecos são reservados e muito raramente falam com estranhos. Ainda mais puxar assunto! Acho que elas ficaram com curiosidade de saber que língua estranha era aquela. Bom, mas eu achei ótimo porque assim teria mais alguém pra conversar durante o resto da viagem — já que faltava 1 hora das aproximadamente 3 horas da viagem. Falei que era do Brasil, e elas ficaram bem interessadas já que como disse não há muitos brasileiros por aqui. Expliquei o que eu fazia, dei mais detalhes do Brasil, etc. etc. Até que chegamos em Copenhague e nos despedimos.

Embora meu plano original teria sido dormir, a viagem começou bem. Normalmente seriam 3 horas no mais absoluto silêncio, eu encarando um bando de suecos e ninguém falando nada. Conversando nem vi o tempo passar.

Antes de prosseguir com o relato, quero explicar como funcionam os trens aqui: não existe controle nenhum, qualquer um pode entrar no trem. Em muitos casos é possível comprar a passagem dentro do trem mesmo, com os cobradores. O controle que eles fazem é o seguinte: depois de cada estação eles vão em quem eles vêem que são caras novas pra pedir se têm a passagem. Quando têm muita gente, eles pedem para quem subiu no trem levantar a mão para que eles possam cobrar. (Eu sei, inacreditável para um brasileiro.) Inclusive na minha vez de pagar a cobradora não tinha mais bilhetes, então ela pediu pra mim pagar para a próxima cobradora que ia subir no trem. Acontece que a cobradora nova, quando assume, considera que todos os que estão no trem já pagaram para a anterior e passou várias vezes por mim sem me cobrar. Eu tive que chamar a dita cuja e explicar pra ela que não tinha pago porque a anterior estava sem bilhetes. Claro que foi a coisa certa a ser feita, mas tenho que admitir que tinha um pedaço brasileiro do meu cérebro que me dizia: “mas que otário!” :-D

Mas voltando ao assunto... Uma vez na estação de trem fomos comprar as passagens de volta. Pegamos a senha e estávamos esperando nossa vez, eu e o Andrigo, conversando. Até que chegou uma mulher e perguntou: “brasileiros”? Outra vez! Estavam ela e a mãe dela, mas conversamos apenas um pouco pois chegou nossa vez e acabamos nos despedindo.

Encontrar brasileiros duas vezes no mesmo dia. Que coincidência.

Bom, pegamos um mapa da cidade na barraquinha de informações para turistas e saímos a caminhar (e tirar fotos, claro). Achei tudo muito bonito, Copenhague de um modo geral me lembrou muito Gotemburgo (que é a cidade que eu mais gostei até agora, entre as poucas que conheci). Pena que o tempo não colaborou muito, estava bem fechado e um pouco frio, mas pelo menos não choveu.

Enquanto estávamos caminhando, imagina o que aconteceu? Esbarramos em três brasileiros! Um casal de namorados e uma guria. Eu não lembro o nome do casal, mas essa outra guria se chama Luciana Quaresma e mora em Nova Iorque, onde trabalha de repórter pra ESPN (vídeo no YouTube). Eles também estavam passeando (tinham chegado no dia anterior) e resolvemos então continuar o passeio juntos. Conhecemos vários lugares legais, entre eles a estátua da Pequena Sereia que é bem famosa por aqui. Não tanto por ser especialmente bonita, mas sim pelo autor do conto ser o Hans Christian Andersen, um dinamarquês. Depois na hora de almoçar (aí pelas 15h) acabamos nos separando.

Enquanto caminhávamos para achar um lugar pra almoçar, uma pessoa chegou na gente e perguntou: “brasileiros”? De novo! Era uma mulher do nordeste que casou com um dinamarquês e estava morando na Dinamarca já faziam 10 anos. Mas só trocamos umas poucas palavras e nos despedimos.

Como a Dinamarca é ainda mais cara que a Suécia (e a coroa dinamarquesa é mais forte que a sueca, para piorar as coisas), nós estávamos procurando um lugar onde pudéssemos almoçar sem ter que vender o fígado e um dos rins. Até que achamos um lugar chinês onde se pagava 50 coroas dinamarquesas (aproximadamente 20 reais) para comer pizza, mas era possível servir-se quantas vezes quisesse. Nem preciso dizer que foi esse o escolhido.

Depois de estarmos tristes de tanto comer, saímos para caminhar um pouco mais e baixar a bóia. Até que uma hora bateu o cansaço e sentamos um pouco num banco para descansar. Adivinha o que aconteceu? Passou um grupo de pessoas falando uma língua familar... Mais brasileiros! E eu achando que a Dinamarca fosse melhor freqüentada... :-)

Já estávamos rindo quando aquela brasileira que encontramos na estação passou por nós de novo. Daí chegamos à conclusão que alguém tinha de estar de brincadeira com a gente.

Bom, ficamos à toa por lá até às 18h, quando voltamos à estação pra pegar o trem de volta. Pegamos o trem e ficamos conversando, até que a mulher que estava na nossa frente resolveu perguntar que língua a gente estava falando. (Enquanto isso, eu pensei: “dois puxando conversa no mesmo dia é sobrenatural”.) Nós falamos que era português, que nós erámos do Brasil, e ela falou que tinha desconfiado. Eu perguntei como ela sabia que era português e ela disse que sabia porque ela era fã das novelas do Brasil! Ela era da Albânia e assistiu Terra Nostra, Renascer, entre outras, e que lá as novelas são todas legendadas. Ela sabia muito mais das novelas do que eu, inclusive. E ela era super-simpática, nós conversamos durante toda a viagem de volta. Ela contou sobre a vida dela, como ela teve que fugir do país com dois filhos pequenos durante a guerra em Kosovo e se refugiar na Inglaterra, depois ela voltou e agora está terminando o mestrado sobre urbanismo em Karlskrona.

E assim foi a viagem. Foi muito legal porque conheci uma cidade nova e muito bonita, porque foi bom encontrar brasileiros pra variar, e porque pude bater papo com gente nova. Por incrível que pareça, pelo fato dos suecos serem bem fechados a gente sente falta desse tipo de bate-papo descompromissado com desconhecidos. É difícil isso acontecer por aqui.

Uma outra coisa que tenho que mencionar é o próprio ato de simplesmente ir visitar uma cidade grande, à pé e com uma máquina fotográfica à tiracolo. Pro Andrigo, que está aqui a tanto tempo, isso não tem nada de mais. Mas pra mim, que praticamente recém cheguei, é algo que acho fantástico. Imagina fazer isso hoje numa cidade grande no Brasil? Aqui a sensação de segurança é total.

P.S.: Não se desesperem, vou publicar as fotos da viagem (afinal, tenho que justificar minha assinatura Pro). Acontece que são mais de 100 e por isso não vou poder fazer isso hoje.