2008-04-08

Garotinha Isabella

Tenho acompanhado daqui o caso da guriazinha de 6 anos que foi atirada do sexto andar. (E como não acompanhar, sendo destaque na maioria dos sites e jornais?) Ao mesmo tempo que eu acho que o álibi do pai não seja lá muito convincente, me preocupa muito mais o comportamento da mídia brasileira em cima do caso: já fez o julgamento e proclamou o veredito. Não interessa se o pai da menina seja depois inocentado: para a opinião pública, ele já é culpado.

Sei que é pedir demais outro comportamento do povão, mas será que a imprensa não poderia ser um pouco mais responsável? Vejam bem, não estou dizendo que o cara é inocente; mas minha opinião é que a imprensa deveria esperar evidências mais concretas antes de abandonar a imparcialidade.

Mas em vez de escrever um monte aqui, é mais fácil colocar links para blogs de pessoas mais inteligentes do que eu e que já se deram ao trabalho.

Alexandre Inagaki, em "O mundo não é para inocentes":
Alguém ainda se lembra de Daniele Toledo do Prado, 21 anos, a mulher que foi detida pela acusação de ter matado seu bebê com uma overdose de cocaína, passou 37 dias na cadeia, foi espancada pelas presidiárias, teve o maxilar quebrado e quase morreu na prisão? Pois bem, o laudo definitivo constatou que não havia cocaína no organismo de sua filha. E Daniele, que ganhou a alcunha de "monstro da mamadeira", era, vejam só vocês, inocente. Saldo dessa história: Daniele perdeu seu bebê, foi vilipendiada publicamente, quase foi linchada e só pôde visitar o túmulo de sua filha dois meses depois de vê-la morrer.
O Observatório da Imprensa pergunta se o caso Isabella Nardoni não é uma nova Escola Base:
Quando estourou o caso da Escola Base, hoje um exemplo estudado nas faculdades sobre o que não deve ser feito em matéria de jornalismo policial, um único jornal desconfiou da história e se recusou a dar uma linha sobre a cascata. Quando o caso foi elucidado e a inocência dos donos da escola restou provada, houve quem sugerisse que o hoje extinto Diário Popular recebesse, naquele ano, o Prêmio Esso de jornalismo pela não publicação das matérias.
O Diário de S.Paulo apostou todas as suas fichas em uma hipótese, a de que o pai de Isabella está envolvido na morte da filha. Se ele de fato estiver, o jornal tripudiou sobre um assassino. Se não estiver, acabou com a vida de um homem inocente. O bom jornalismo poderia evitar este tipo de atitude intempestiva. Ao que parece, a lição da Escola Base já começou a ser esquecida.
Além da imprensa, o Observatório critica também o delegado responsável pela investigação:

O delegado deu entrevista que a Rede Globo, pelo menos, pôs no ar (não vi outros telejornais, mas suspeito que todos o tenham feito).

Adiantaria alguma coisa se a Folha, digamos, não publicasse a acusação ao pai da menina?
Salvaria a face do jornal, mas não salvaria o principal, que é a reputação do pai.

Nem importa, no caso, se vier a se comprovar que o pai é mesmo culpado. Não cabe ao delegado, ao menos nesta fase da investigação, dizer quem é ou não suspeito.

Se o pai for de fato culpado, será punido ao fim da investigação. Se for inocente, já está punido.

O jornalista Gilherme Firuza conta por experiência própria (seu filho caiu do oitavo andar):

Se não é possível à coletividade imaginar na sua própria pele o ardor da tragédia, já seria um belo avanço civilizatório se ela entendesse, de uma vez por todas, que a vida (dos outros) não é um Big Brother.

E Pablo Villaça, no seu blog:
Durante dois dias, a capa do UOL manteve a informação de que manchas de sangue haviam sido encontradas no carro do pai da garotinha Isabella - o que obviamente reforçava a hipótese de que ele a tivesse matado. Hoje, o UOL, que praticamente não tirou Isabella da capa desde o dia do crime, traz a manchete "Peritos concluem que Isabella foi asfixiada e atirada pela janela".

Porém, nas páginas internas do portal, uma pequena chamada aponta para o fato de que os peritos concluíram que não havia manchas de sangue no carro do pai da menina.

Agora eu pergunto: no mínimo por uma questão de ética isto não deveria ter ocupado o mesmo espaço que a informação incorreta divulgada anteriormente na capa? Durante dois dias o UOL sugeriu, com aquela notícia, uma evidência forte que simplesmente não existe; será que a informação correta não merece destaque?

Não, porque não traz o peso sensacionalista de sugerir que um pai matou a própria filha. Já a chamada da "asfixia" faz isso muito bem e garante pageviews.

Eu sinceramente espero que o cara seja mesmo culpado, que ele tenha asfixiado e atirado a pobre guriazinha pela janela. Porque a outra possibilidade, de que ele seja inocente e tenha visto a filha morrer de forma trágica na sua frente, e além disso ser crucificado pela imprensa e pela opinião pública, é cruel demais.