2009-05-20

Retrospectiva, parte II

(Mais uma vez desculpem por demorar tanto para postar. Ao fim da retrospectiva vocês irão entender o porquê.)

Como estava contando no post anterior, no dia 24 de dezembro fui à Copenhague para pegar meu vôo com destino ao Brasil. Não via a hora de chegar, por tudo que tinha acontecido nos últimos meses e porque seria também uma válvula de escape onde eu poderia esquecer todos os problemas. Pelo menos por algumas semanas.

Eu cheguei no dia 25 de manhã bem cedo no Rio (se não me engano eram umas 5 ou 6h), depois de fazer uma conexão em Paris. Minha primeira preocupação foi saber se minha mala tinha chegado, pois da última vez isso não aconteceu. Depois de ver ela bonitinha aparecendo na esteira, fiquei tranqüilo: os presentes que trouxe de natal da Suécia iriam ser entregues. :-) Segunda preocupação: estava morrendo de fome, precisava comer algo! Mas imagine só: feriado de natal, 5 ou 6h da manhã... Obviamente nada estava aberto no maldito aeroporto. Raios!

Bom, as lombrigas tiveram que agüentar até eu chegar em Porto Alegre, aí por 8 e pouco da manhã. Desembarquei, peguei minha mala, entrei num táxi e me fui para a rodoviária pois sabia que tinha um ônibus para Faxinal do Soturno (cidade onde mora minha mãe) às 10h e queria comprar a passagem antes que acabassem os lugares. Ainda bem que quando cheguei lá o ônibus não estava muito cheio, então foi tranqüilo. Nesta altura do campeonato as lombrigas não agüentavam mais e entrei no primeiro boteco que entrei na rodoviária e pedi um bife à cavalo com arroz, feijão e salada. O garçom achou meio estranho, mas um pouco depois lá vinha o pratão. Devorei aquilo tudo como se tivesse chegado da Somália, engraçado foram os outros clientes que me olhavam com espanto e deviam pensar de onde vinha aquele louco que estava comendo arroz, feijão e bife às 9h e pouco da manhã. (Não esquecam que o meu relógio marcava meio-dia e pouco, horário sueco.)

Bom, às 10h peguei o ônibus que iria me deixar em Faxinal às 15h. (Maldita viagem, leva quase metade to tempo que leva pra atravessar o Atlântico.) Como disse no outro post, eu iria chegar de surpresa — ninguém sabia que eu estava chegando pois eu tinha dito que iria chegar em janeiro. A viagem já é longa, ainda mais que estava ansioso pra chegar de uma vez, então durante estas 5h muitas coisas passaram pela minha cabeça: como era estranho estar “visitando” as cidades do interior gaúcho (meu ônibus era daqueles pinga-pinga que param em tudo que é lugar) quando menos de 24h antes eu estava no outro lado do mundo; por um lado era bom estar na minha terra de novo, por outro eu não me sentia mais como pertencente àquele lugar.

Enfim. Eram 15h e um pouco mais e finalmente cheguei na rodoviária. Peguei minha mala e vim puxando, até que cheguei no portão de casa. Toquei a campainha. Suspense. Passou um algum tempo e nada. Será que não tem ninguém em casa? — pensei. Até que a porta de casa abriu. Ao me ver, minha mãe disse:

— Não acredito!

Pode acreditar, sou eu mesmo. Nos abraçamos e entrei, completamente suado (experimentem sair do inverno da Suécia pro verão do Brasil e puxar uma mala de 23kg no sol), e também matei a saudade dos meus cachorros (o Chacal e a Jade) que pulavam que nem coelhos. Pelo menos ainda me reconhecem. :-) Tomei um banho frio (nada como um banho frio) e depois fui dar um oi para a parentada que mora na cidade.

Bom, nos primeiros dias fiquei em Faxinal mesmo, matando a saudade da mãe. E da comidinha dela... :D Mas como Faxinal é uma cidade minúscula — tem por volta duns 6 mil habitantes — sem muita coisa para se fazer, eu ficava lá apenas nos fins de semana. Durante a semana eu ficava em Santa Maria, cidade onde morei por 10 anos antes de me mudar para a Suécia e onde boa parte dos meus amigos ainda mora. Ainda bem que a maior parte deles não estava de férias, assim pude encontrar muitos deles. Se tem uma coisa que aprendi ao morar tão longe é descobrir o quanto os amigos fazem falta na vida da gente: quero aqui dizer que vocês todos são muito especiais pra mim. Foi um prazer imenso poder encontrá-los de novo (e pra quem eu não encontrei, espero conseguir da próxima vez).

Minhas férias então resumiram-se a: durante a semana tomar cerveja em Santa Maria com meus amigos, e fins de semana em Faxinal com minha família. Nada de especial, certo? Só se for pra vocês, porque pra mim foi o máximo! Não troco um encontro com meus amigos por viagem ou praia nenhuma!

O problema? É que 6 semanas passam voando. E quando vi, já estava na hora de voltar. Voltar para a escuridão do inverno sueco, para um lugar onde eu estava sem emprego e iria morar de favor. Me despedir na rodoviária foi muito difícil, muito pior do que da primeira vez. Porque se um ano antes eu estava voltando com boas perspectivas (assim eu pensava), agora eu estava voltando para uma realidade que eu nunca tinha enfrentado antes: o desemprego, e num país estranho.

Não preciso dizer que chorei muito na hora da despedida. E no ônibus. E cada vez que eu pensava que pelo menos um ano iria se passar até eu retornar novamente. Assim como aconteceu um ano antes, depois que cheguei fiquei deprimido por umas duas semanas. Depois melhora, aos poucos passa. Tudo passa.

Tem que passar. Não adianta chorar. Afinal, preciso achar um emprego.

(Vem aí: parte III.)