2009-06-30

Retrospectiva, parte III

Como contei na segunda parte, foi muito duro deixar o Brasil e voltar para a Suécia. Afinal, pela primeira vez desde os 14 anos de idade eu estava desempregado (exceto pelo primeiro ano de faculdade onde eu também não trabalhei), e num país estranho ainda por cima.

Assim que voltei, minha primeira preocupação era de ir no Arbetsförmedlingen (algo como o Ministério do Trabalho) para poder receber meu seguro-desemprego, afinal eu estava sem renda nenhuma e precisava ter dinheiro para a comida e para o aluguel que precisava pagar para o Andrigo por ficar no apartamento dele. Como eu não contribuía para nenhum sindicato quando trabalhava, só tinha direito ao benefício básico que é por volta de R$ 1.250,00 por mês. Isso pode parecer muito, mas na Suécia é bem pouco. Este valor não iria cobrir todos os meus gastos, mas melhor do que nada — pelo menos iria retardar o que eu teria que gastar do dinheiro que tinha guardado.

Quando fui no Abertsförmedlingen deu pra ter uma idéia do tamanho da crise que atingiu a Suécia: as filas de atendimento eram enormes, com muitos suecos mas principalmente estrangeiros (pelo menos que me pareceram estrangeiros, podem ser suecos descendentes de imigrantes também). Neste momento pensei comigo mesmo: não vai ser nada fácil encontrar um emprego. Quando chegou minha vez de ser atendido, mais um problema: quase nenhum dos funcionários fala inglês! Expliquei em um sueco mais do que porco que eu não falava sueco e precisava falar com alguém que entendesse inglês. Troquei de atendente, esse sim falava inglês, mas não posso dizer que com muita boa vontade. Ele não me explicou muita coisa sobre as regras, basicamente me passou umas brochuras em sueco e mandou ver tudo no site (também em sueco). Saí de lá insatisfeito com o atendimento, mas principalmente preocupado com o desemprego.

(Uma pausa para explicação: acho razoável que toda a documentação esteja em sueco, afinal estou na Suécia! Também é razoável que a maioria dos funcionários não fale inglês. Acontece que minha impressão foi de que fui mal atendido por ser um estrangeiro, não falante da língua nativa, como se eles estivessem fazendo um favor e eu estivesse sugando do governo. É bom lembrar que por dois anos eu trabalhei, contribuí, e paguei todos os impostos — que não são baratos. O que eu ia receber de seguro-desemprego era menos do que eu contribuía quando trabalhava.)

E agora, o que fazer? O negócio era entrar todos os dias nos sites de empregos e mandar meu currículo para todos os anúncios que eu pudesse encontrar (da minha área, claro). E rezar por uma entrevista. Fora isso, tinha muito tempo livre — mas não tinha dinheiro, o que limita em muito as opções do que fazer...

Em alguns casos não obtive resposta das empresas às quais mandei meu currículo. Em muitos outros casos obtive resposta, que sempre era mais ou menos assim: gostamos muito do seu currículo, mas a posição exige alguém com conhecimentos de sueco. Já em alguns poucos casos eu consegui entrevistas, todas em empresas de consultoria, e mei dei bem em todas: me ofereceram a vaga logo depois. Mas como eu iria trabalhar em projetos in loco em outras empresas, essas últimas teriam que dar o aval: infelizmente todas me rejeitaram, quase todas por razões da língua, e uma porque eu não tinha experiência suficiente em um ponto específico que eles consideravam importante.

Logo ficou claro que iria ser bem mais difícil do que eu imaginava, e minha única alternativa era utilizar o tempo livre pra aprender sueco. O problema é que aprender uma nova língua por conta própria não é algo muito fácil, e embora eu acho que seja possível (aprendi inglês assim, afinal) são necessários muitos meses, sendo muito otimista. E eu não posso esperar tanto tempo assim, afinal como o seguro-desemprego não paga todas as minhas despesas e meu dinheiro guardado não é infinito. Tentei uma vaga no Svenska för invandrare, curso de sueco para imigrantes que é oferecido de graça pelo governo, mas só iriam abrir novas vagas na segunda metade do ano.

Passaram-se várias semanas assim, eu mandando currículos e tentando estudar sueco por conta própria no tempo livre. Lá pelas tantas eu recebia uma carta do Arbetsförmedlingen me convocando para ir lá para explicar o que eu andava fazendo — sim, na Suécia para continuar recebendo o seguro-desemprego é necessário ir lá de tempos em tempos e explicar de que forma se está procurando emprego, se recebeu alguma oferta, e por aí vai. De vez em quando também era convocado para eventos que o órgão organizava onde empresas que procuravam mão-de-obra estrangeira apareciam. Só que em quase a totalidade dos casos eram empregos braçais ou que exigiam pouca qualificação (trabalhar na limpeza, ou em lanchonetes, essas coisas), e embora não tenha absolutamente nada contra quem tem esse tipo de emprego, não foi com esse objetivo que eu fui para a Suécia.

Assim foi indo, o tempo ia passando, já era lá por maio e nada de emprego. A idéia de largar tudo e voltar para o Brasil ia crescendo cada vez mais. Até que um amigo meu, colombiano, que mora em Estocolmo e também perdeu o emprego, me disse: tem uma empresa na Dinamarca que está contratando e trabalha com Java e usa somente inglês, eu fui rejeitado, mas não custa nada tentar. Claro, tentar não custa nada, então mandei um e-mail e marquei uma entrevista. Fui até lá e fui entrevistado por uma pessoa dos recursos humanos, que também mostrou o resultado do teste psicológico que fiz online antes da entrevista — aparentemente não sou louco, ou o teste falhou. Tive que fazer um outro teste de raciocíno e lógica (responder o melhor possível 60 questões em 20 minutos, se não me engano), e fui entrevistado também por um dos chefes da área técnica. Depois da maratona, fui liberado e informado que iriam ligar para dar o resultado da entrevista.

Saí da entrevista achando que me saí bem, mas até aí nenhuma novidade. A novidade foi que no dia seguinte me ligaram e me ofereceram o emprego! E queriam uma resposta se eu ia aceitar ou não no mesmo dia!

Uma coisa que eu não falei antes é que a empresa não é bem em Copenhague, mas sim em Ballerup, uma cidade próxima (chamada de Silicon Valley da Dinamarca, pois é cheia de empresas de tecnologia). Pra mim ir de Malmö (que fica na fronteira) até lá preciso pegar dois trens (o Öresundståg para atravessar o estreito de Öresund e ir até Copenhague, e o S-Tåg de Copenhague até Ballerup) e mais um ônibus (da parada do S-Tåg até mais perto da empresa), o que dá entre 1h30-2h em cada sentido. E eu pretendo continuar morando na Suécia, mais especificamente em Malmö, pois tenho visto sueco permanente e todos meus amigos estão aqui. Além disso a Suécia é um lugar com custo de vida muito menor do que a Dinamarca. Isso é parcialmente explicado pela diferença de cotação entre a coroa dinamarquesa e a sueca — a coroa dinamarquesa está valendo por volta de 45% a mais.

Fiquei angustiado o dia inteiro, pois embora não gostava nada da idéia de perder um tempão em deslocamento, no momento eu não tinha nenhuma outra opção. Se eu pudesse escolher, escolhia um outro emprego sueco que pagasse menos mas não tinha que perder tanto tempo (ainda mais se fosse em Malmö, onde é possível ir a qualquer lugar de bicicleta). Só que eu estaria trocando o certo pelo incerto, e quanto mais o tempo passa mais difícil fica conseguir um emprego (o buraco no currículo vai ficando maior, ruim de explicar para potenciais empregadores). E o salário que me ofereceram foi muito bom, já seria alto se fosse em coroas suecas, mas sendo em coroas dinamarquesas ele passa a ser instantaneamente 45% maior.

No fim não teve muito o que pensar. Aceitei!

Liguei para a empresa e falei minha decisão. A idéia seria eu começar dia primeiro de junho, mas tem um detalhe: preciso de visto para trabalhar na Dinamarca, e o pedido leva por volta de um mês para ser considerado. Assim assinei contrato para começar dia primeiro de julho.

Agora começava outro desafio: arrumar a papelada para poder trabalhar na Dinamarca. Primeiro de tudo era necessário conseguir um visto, e a Dinamarca é bem estrita no que se refere à imigração. Tive que preencher um formulário e anexar um monte de documentação. Como muita da minha documentação é em português (diploma, etc.) eu tinha que anexar um tradução juramentada para dinamarquês feita por um tradutor reconhecido pelo governo da Dinamarca.

Procurando na Internet só achei dois caras no país inteiro que fazem esse serviço, e um deles estava viajando. O outro me respondeu que morou em Julho de Castilhos, RS (!), pois era filho de um dinamarquês que morava lá a trabalho e assim aprendeu português. Como ele era minha única opção, mandei o material para ele traduzir. Para terem uma idéia do custo, ele cobrou o equivalente a R$ 300,00 a folha...

De posse da documentação, fui cedo até Copenhague no Udlændingeservice (serviço de imigração) e peguei uma senha. Meu número era lá por 300 e estavam atendendo por volta do número 70. Sentei e me resignei, pois vi que a espera ia ser longa. Enquanto isso via as centenas de pessoas em volta: árabes, indianos, americanos, africanos... Gente nova, gente velha, crianças, bebês... Podia-se dizer que o mundo inteiro estava representado ali. E enquanto as horas passavam eu só torcia para não ter nenhum problema na minha documentação pra não ter que voltar ali e esperar tudo de novo. Depois de umas 5 horas de espera eu finalmente fui atendido. Graças a Deus não faltou nada! A pessoa que me atendeu falou que em caso de problemas eles iriam entrar em contato (toc toc toc na madeira) e eu ia receber a decisão pelo correio.

Um mês depois, lá pela metade de junho, recebi uma carta com a decisão. Será que ganhei o visto?

Não perca o próximo episódio com a conclusão desta incrível saga, neste mesmo bat-horário, neste mesmo bat-canal.