2009-10-20

Foi quase

Ontem de manhã eu estava bem tranqüilo no Öresundståg, o trem que me leva da Suécia à Dinamarca para trabalhar, e percebi que estava sem o cartão do trem. (Como faço esse trajeto todos os dias, eu uso um cartão que pago todo mês e é muito mais barato do que ficar comprando a passagem todos os dias.)

Para quem não sabe como funcionam os trens na Suécia (e na Dinamarca, e acredito que em quase todos os lugares da Europa), não há controle nenhum na entrada: o trem pára, e as pessoas entram. Se não tiver a passagem e os fiscais não aparecerem para conferir, parabéns: você viajou de graça (e não é sempre que aparecem). Mas se aparecerem e você não tiver passagem, toma uma multa: no Öresundståg é de 800 coroas suecas (600 coroas dinamarquesas se estiver do lado da Dinamarca), o que por cima equivale a uns 250 reais. Esses dias mesmo vi um cara sendo multado porque embarcou na parada do aeroporto em Copenhague e estava indo para Malmö sem ter comprado passagem.

Bom, quando eu me dei conta que não tinha o cartão já era tarde; eu já estava dentro e o trem já estava andando. Como não tinha nada que eu podia fazer, só torci para que o fiscal resolvesse não aparecer naquele dia. Nem preciso dizer que a viagem estava sendo um pouco tensa...

E, como é perfeitamente explicável pela lei de Murphy, não tardou e vi o fiscal lá nas fileiras da frente: “biljett, tack.” (“Passagem, por favor.”)

Pronto. E agora? Pensei em levantar e ir pro banheiro do outro lado do vagão, e esperar lá por alguns minutos até o fiscal passar e voltar pro meu lugar. Mas geralmente não é só um fiscal, do outro lado provavelmente vai ter outro. E se ele pedir minha passagem quando eu estiver passando? Pensei: vai dar muito na cara, vai ser pior. Resolvi então ficar sentado e resolver na lábia, afinal brasileiro não desiste nunca. :P

E o fiscal veio vindo até que chegou do meu lado. “Biljett, tack”. Resolvi fazer um showzinho: disse “claro!” e botei a mão no bolso de trás da calça, tirei a carteira, abri com calma, olhei dentro e e fiz uma expressão de surpresa. Daí botei a mão no outro bolso de trás, depois no da frente, depois no outro... Comecei a olhar no bolso do casaco, depois no outro, depois no bolso de dentro... Peguei a minha pasta, abri, e comecei a procurar lá... e o cara esperando. Finalmente fiz que desisti, emendei a maior cara de preocupado possível, virei pro fiscal e falei que não tinha conseguido encontrar meu Öresundskort (o cartão do trem).

Ele me olhou e não disse nada. Pausa. E eu pensando: diabos, o que esse cara vai fazer agora?

O fiscal então disse:
— Tem dinheiro?
— Coroas suecas ou dinamarquesas?
— Coroas suecas, mas pode ser dinamarquesas também.
— Quanto?

E o fiscal começou a apertar os botões na maquininha dele. Pensei comigo mesmo: agora fudeu. Já estava esperando a facada quando o fiscal disse: “Está com sorte, esta máquina não está atualizada então vou ter que te cobrar o preço velho. São 98 coroas suecas.”

Bah! Ele me cobrou só a passagem, e o preço velho ainda por cima! (O preço da passagem tinha aumentado 10% no início do mês.)

Só explicando: não se pode comprar passagens dentro do trem. Se não tiver a passagem, é multa. Os fiscais só têm as maquininhas pra emitir passagem no caso excepcional de dar algum problema com as máquinas que ficam nas estações e o povo não conseguir comprar passagem nelas.

Dei 100 coroas pra ele, ele me devolveu o troco e me deu a passagem e despediu-se com um tack (obrigado).

Um pouco de sorte é bom às vezes. Um showzinho também sempre ajuda. :D

Só sei que hoje de manhã conferi umas 5 vezes antes de sair de casa se o Öresundskort estava no bolso...