2009-12-11

Coisas ruins da Suécia

Como ultimamente tenho só metido o pau no Brasil, resolvi mudar o discurso um pouco e falar sobre as coisas que são ruins aqui na Suécia. Afinal, sou democrático. :-)
  • Serviços e atendimento em geral: Aqui na Suécia a desigualdade é bem menor, não há aquele abismo salarial entre os que ganham muito e os que ganham pouco. Isso significa que ninguém ganha um salário de fome, e que contratar alguém pra fazer qualquer serviço, por mais simples que seja, não é barato. Conseqüência: as lojas, supermercados, bancos, bares e tudo o mais vão ter o mínimo de funcionários possíveis.

    Canso de ir no supermercado, gastar 5 minutos para comprar 2 ou 3 itens e ficar 30 minutos na fila porque dos 15 caixas do mercado apenas uns 4 ou 5 estão abertos. Não há empacotadores, claro, e tenho que ensacar as coisas com pressa porque caso contrário vão chegar as coisas do próximo cliente e tenho que desocupar o espaço. Não há separação de funções, as mesmas pessoas que trabalham no caixa fazem outras coisas no mercado também, assim se o movimento é pouco o funcionário sai do caixa e vai fazer outra coisa.

    Isso significa também que se for possível colocar uma máquina para fazer o serviço, vão fazer. Por exemplo, para comprar passagens de ônibus e trens, ou renovar o cartão, usa-se máquinas; para retornar as garrafas ou latas no mercado, usa-se máquinas; e por aí vai.

    Como já é caro pagar o salário normal, hora extra então nem pensar. Se chegar numa loja 5 minutos antes de fechar e estiver interessado em comprar alguma coisa, quando chegar na hora de fechar vão avisar que estão fechando a loja e praticamente te expulsar do lugar. O tempo deles vale tanto quanto o teu, então se quiseres ser atendido com calma chegue antes!

  • Filas: Conseqüência do item acima. Como a maioria dos lugares terá poucos atendentes, sempre há fila e não espere atendimento rápido. Para terem uma idéia, sabem aquela maquininha onde se aperta um botão e a máquina cospe uma senha? Foram os suecos que inventaram.

    Uma das coisas que mais me dá raiva é quando saio à noite em algum pub ou discoteca e vou no balcão comprar uma cerveja. Muitas vezes leva-se 20 minutos para ser atendido! Há apenas uma ou duas pessoas no balcão, e não existe o esquema do cartão como no Brasil onde só se marca um X, então o processo é assim: o cliente pede um drink qualquer, o atendente vai lá fazer, uns 5 minutos depois ele traz o drink, o cliente entrega o cartão de crédito, o cara do bar vai lá na máquina, digita algumas coisas, espera mais um minuto para processar, pega o recibo, devolve pro cara assinar, pega o recibo, coloca junto na pilha com os outros, e só aí atende o próximo cliente. Imagina quanto tempo não leva para atendar umas 30 pessoas esperando no balcão.

    Aqui enquanto um atendente atende um cliente, ele nem olha pros lados: os outros clientes não existem. Se fosse no Brasil, o atendente enquanto faz o drink ou espera a máquina processar o cartão já pede pro próximo cliente o que ele quer e se for algo simples como uma lata de cerveja já vai atendendo para agilizar. Esperar tal jogo de cintura de um sueco é perda de tempo.

  • Escuridão no inverno: Muitos dos meu amigos no Brasil me perguntam: “como tu agüenta morar naquele frio?” mas na verdade aqui no sul da Suécia não é tão frio assim. O inverno é bem mais comprido do que o do RS, obviamente, mas não é muito mais frio não. Além disso, o frio é só quando se está na rua porque qualquer lugar fechado (inclusive ônibus e trens) possui calefação e daí a temperatura é bem agradável, lá por volta de 20°C.

    Agora, a escuridão é um pé no saco. Como Malmö fica a 55 graus de latitude, há muita variação na quantidade de luz entre o verão e o inverno. Enquanto que no verão o sol nasce aí por umas 4 da manhã e se põe quase à meia-noite, no inverno o sol nasce aí pelas 8h30 e se põe às 15h30. Considerando também o fato de que muitas vezes fica o tempo todo nublado, é perfeitamente possível que 1 ou 2 semanas passem sem que seja possível ver a luz do sol. Preciso falar que é deprimente?
  • Öresundståg: Eu achava que os trens da Suécia funcionavam bem. E funcionam, isso se não precisar andar neles todos os dias. De uma maneira geral eles são pontuais, mas vira e mexe eles atrasam, estragam, dão pane, ou coisa parecida. O Öresundståg, o trem que eu pego todos os dias para atravessar a ponte que liga a Suécia com a Dinamarca seguido dá problema. A demanda é muito grande, e não podem colocar mais vagões porque a plataforma na estação de Malmö é pequena (estão reformando a estação justamente para resolver isso), então muitas vezes o trem vai completamente lotado. Quem é de Santa Maria e já pegou um ônibus lotado para a UFSM, saiba que às vezes o trem aqui é pior. Às vezes o trem aparece só com metade dos vagões, ou é cancelado e daí o próximo vai com o dobro de gente, um caos. Isso se não der um problema qualquer na metade do caminho e todo mundo tiver que descer.

    Esses problemas não acontecem todos os dias, mas pelo menos 1 ou 2 vezes por semana dá algum imprevisto. Para quem pega trem todos os dias, é um stress. Não é à toa que li no jornal aqui que o serviço de trens é um dos que teve a pior avaliação numa pesquisa feita junto à população. Ao contrário do que se pensa no Brasil, nem tudo funciona perfeitamente no primeiro mundo.

  • Os suecos não são acostumados a gentilezas: Como falei antes a desigualdade na Suécia é bem menor, inclusive entre os sexos, pessoas de idade e tudo mais. Todos se respeitam mas isso significa também que não há tratamento diferenciado: aqui não há, como no Brasil, fila para idosos ou esse tipo de coisa. Isso por si só não é ruim, mas exatamente por isso não são acostumados a receber gentilezas ou favores: eles não sabem muito o que fazer quando alguém deixa eles passarem na frente na fila do mercado porque tem só 1 ou 2 itens, ou quando se cede o lugar no ônibus para alguém mais de mais idade (alguns se ofendem, inclusive). E olha que isso não aconteceu só comigo. Eu entendo o ponto de vista deles, de que não precisam de favores, mas acho que cada vez que alguém tenta ser gentil o mundo melhora um pouquinho. Não mata nem diminui ninguém.

  • Os suecos são um pouco fechados demais pro meu gosto: Isso não é exclusividade deles, é uma característica do povo escandinavo em geral. Tá certo que não estou sendo muito justo com eles porque eu, sendo latino, vou achar qualquer povo não-latino fechado mas às vezes dá um pouquinho nos nervos. Essa piadinha que achei é bem engraçada:
    Dois dinamarqueses, noruegueses, finlandeses e suecos encalham em 4 ilhas distintas. Quando todos são finalmente salvos verificou-se que os dinamarqueses se tinham aliado na busca pela sobrevivência, os noruegueses estavam pescando e os finlandeses já tinham cortado as árvores todas da ilha. Os suecos, esses, ainda estavam à espera de alguém que os apresentasse.
    Tirei essa piadinha do blog de um português que foi morar na Suécia e também estranhou certas coisas. Vale a pena visitar os outros posts que ele fez sobre comportamento dos suecos.

  • Systembolaget: Na Suécia a venda de qualquer coisa com mais de 3% de álcool só é permitida na Systembolaget, uma loja do governo que só vende isso. Não é possível comprar no mercado (mas é claro que bares, danceterias, restaurantes também podem vender). Nos sábados a Systembolaget fecha às 14h (e não abre aos domingos), então se decidir beber de última hora está ferrado. E é melhor não ir com pressa aos sábados, porque vai estar lotado e a fila vai ser gigante. Nem vou comentar o preço, só vou dizer que um monte de gente vai até a Alemanha só para comprar bebida e trazer para a Suécia.

  • Festas que acabam às 3h: Todos os lugares fecham às 3h no máximo. Precisa falar mais alguma coisa?
Isso é o que consigo me lembrar no momento. Com certeza tem mais, quando me lembrar do resto faço um outro post.