2009-12-03

Sem chance nenhuma

Quem me conhece sabe que vira e mexe estou criticando o Brasil. Não o faço porque agora moro no exterior e quero dar uma de esnobe, pelo contrário: só depois de vir para o exterior que eu comecei a valorizar um monte de coisas que o Brasil tem e eu não dava muita bola. E só aí me dei conta do potencial que o Brasil tem, e não aproveitamos; como poderíamos ser uma das maiores nações da Terra, e não somos.

Todo mundo sabe que é muito mais fácil de enxergar os problemas quando são vistos de fora. Por isso que existem consultores de empresas; por isso que a gente quando não sabe o que fazer (seja no emprego, relacionamento, questões familiares) pede conselhos a pessoas de fora. E é por isso que eu gosto de ler blogs de estrangeiros que moram no Brasil e escrevem sobre o nosso país, pois eles vêem tudo de uma outra perspectiva. Perspectiva essa que geralmente é mais objetiva e menos influenciada por questões culturais, partidárias, etc.

Infelizmente o brasileiro tem um problema grave, que é de não aceitar críticas vindas de um estrangeiro. Sabemos que temos milhares de problemas, falamos mal do próprio país todo o dia, mas quando um estrangeiro diz o que estamos cansados de saber daí parece que caiu o mundo. E não sou eu que estou falando: Rachel, uma nova-iorquina que morou no Rio, já escreveu sobre isso duas vezes (em inglês) e concordo plenamente com ela. O caso mais recente foi do Robin Williams que fez piada sobre as Olimpíadas no Rio; eu pessoalmente achei a piada bem sem graça mas a imprensa toda caiu de pau dizendo que o ator foi viciado em cocaína (qual a relevância disso?) e o Comitê Olímpico Brasileiro quer processá-lo. Façam-me o favor! Em vez de se preocuparem com uma piada sem graça, por que não se perguntam o que leva um comediante a fazer uma piada assim? Será que não é porque a imagem do Rio estar associada a prostitutas e drogas? Lembro do episódio dos Simpsons no Brasil que também deu o que falar alguns anos atrás: os Simpsons passaram mais de 20 anos criticando o modo de vida americano (de forma ácida e dura muitas vezes), fazendo piada de ingleses, franceses, etc. e todo mundo achava engraçado mas quando fazem piada do Brasil daí é demais! E também foram ameaçados de processo por alguém do Rio na época. Coitadinhos dos políticos, tão sensíveis... Mas não são só os políticos, o brasileiro em geral só gosta quando os estrangeiros falam bem do país (os clichês de sempre: clima, praia, carnaval, mulheres, festas), mas torce o nariz quando ouve qualquer coisa que possa remotamente ser uma crítica.

Mas estou desviando do assunto. O objetivo do post é outro. Estava dizendo que gosto de ler a opinião dos estrangeiros, principalmente as críticas, porque acho elas mais objetivas e verdadeiras (o que não significa que sempre estão corretas ou sempre concordo com elas) já que vêm de alguém de fora que enxerga as coisas de outra perspectiva. E li duas coisas recentemente que achei tão perfeitas e verdadeiras que quero mencioná-las aqui.

A primeira foi um post que comenta a opinião de Richard Feymann, um físico ganhador do prêmio Nobel que deu aula na Academia Brasileira de Ciências entre 1951 e 1952, sobre o ensino de ciências no Brasil. Peço encarecidamente que pare de ler este meu post agora e clique no link aí do começo do parágrafo, leia o texto e depois volte pra cá. Não tenho pressa, posso esperar.

Leu? Que bom.

A segunda coisa foi em um blog que assino, de um porto-riquenho que mora no Brasil. Em um dos posts ele escreve, em inglês, sobre o sonho de muitos brasileiros de fazer faculdade e passar em um concurso e porque ele considera que todo esse processo é um atraso. Tem tantas verdades ali que me obriguei a reproduzir o post, traduzido em português:



Sem chance nenhuma
3 de dezembro de 2009

Pergunte a um brasileiro o que ele pensa que vai trazer a ele uma vida melhor e ele pode responder duas coisas: estudar na universidade e um emprego público. O problema é que os processos que as pessoas têm que seguir para conseguir ambas as coisas condenam a sociedade brasileira à mediocridade.

O primeiro é o vestibular, o teste anual conduzido por qualquer universidade para admitir candidatos. Nos EUA os estudantes são julgados pelas notas no SAT [teste parecido com o nosso vestibular], cartas de recomendação, ensaios musicais, serviços comunitários, e é claro, as notas na escola. No Brasil, tudo se resume ao teste e sua capacidade de superar os outros estudantes. Pelo que posso dizer dos exemplos que vi, esses testes não medem a inteligência, capacidade de raciocínio ou de resolver problemas. Isto é evidente pelo fato que o vestibular testa os candidatos em tópicos irrelevantes (dependendo do curso); por que um candidato ao curso de filosofia tem que ser testado no seu conhecimento de química? Uma prova recente tinha uma lista absurdamente longa de matérias: português, matemática, história, física, geografia, química, biologia e inglês.

Um desempenho bem sucedido no vestibular envolve três coisas. Primeiro, você deve ser capaz de decorar. Se você não consegue gravar e reproduzir fatos e fórmulas, o vestibular é um desafio impossível. Segundo, é melhor que você consiga regurgitar os quatro anos do ensino médio [não seriam três, ou agora mudou?] se você passar de seis meses a um ano em um cursinho pré-vestibular. Isso gira uma enorme quantidade de dinheiro na economia brasileira, e o estudantes, chamados de "feras", estão preparados como atletas correndo uma prova de 100 metros rasos. Terceiro, e finalmente, estudantes de escolas particulares têm uma vantagem óbvia sobre seus colegas de escolas públicas. Não apenas as escolas particulares são melhores como podemos assumir que seus pais serão capazes de pagarem para fazer o vestibular em meia dúzia de universidades, mais os cursinhos necessários.

O resultado é simples: estudantes que freqüentaram escolas particulares vão melhor no vestibular e acabam nas universidades públicas (que no Brasil são gratuitas), e estudantes de escolas públicas nas particulares (que são pagas). É uma generalização, claro, mas a verdade é que um estudante de um bairro pobre provavelmente vai freqüentar uma escola pública que não o educa de forma adequada, além de que ele não pode pagar um cursinho nem pagar por meia dúzia de vestibulares. Suas chances de sucesso são pequenas. Sua única opção (assumindo que ele tem uma) é trabalhar para pagar a mensalidade em uma universidade privada. De novo, estou ciente que essa é uma generalização e sempre existirão exceções à regra.

Como resultado, o Brasil tem visto um surto de abertura de novas universidades particulares, muitas das quais são como os community coleges dos EUA ao invés de instituições privadas como Cornell. Surpreendentemente, 9 em cada 10 instituições de curso superior são privadas, absorvendo 75% de todos os estudantes brasileiros. A certificação dessas faculdades/universidades é um grande problema, já que em Recife há uma dessas em cada esquina... mas esse é um assunto para outro dia.

Dando crédito ao Brasil, um esforço tem sido feito para quebrar esse ciclo vicioso com a criação do ENEM. Este exame parece ser mais focado nos básicos: língua, matemática e capacidade de raciocínio. Também permite que os estudantes paguem apenas por um teste que é reconhecido por uma longa lista de universidades. É um passo na direção certa, onde as capacidades natas do estudante têm um peso maior do que a capacidade de memorização ou possibilidades financeiras. Entretanto, há uma reviravolta digna de novela (este é o Brasil, afinal). O teste do ENEM vazou, e enquanto um segundo teste foi feito e agendado, algumas universidades decidiram não aceitar o seu resultado. Talvez será melhor no ano que vem e eventualmente o teste vai "pegar". Até lá, os estudantes se preparam como velocistas, correndo em direção ao vestibular mas sem se preparar para a maratona (ou seja, a vida). Ah, e os pobres estão correndo descalços.

A segunda praga é o concurso. É espantoso para mim, sendo estrangeiro, pensar que o governo julga os candidatos baseados em um teste ao invés do currículo, educação, entrevistas e cartas de recomendação. Mas isto é perfeitamente normal no Brasil. Alguns podem argumentar que o propósito é deixar o processo objetivo, e este é um objetivo nobre. A realidade, entretanto, é que essas oportunidades acabam sendo aproveitadas não necessariamente pelos mais capazes ou inteligentes, mas por aqueles que aprenderam a jogar o jogo.

Até aqui você provavelmente consegue adivinhar dois requisitos. Memorização é obviamente um deles, pois se espera que você memorize uma quantidade infinita de conhecimento sobre qualquer vaga que estiver competindo. O segundo, como o vestibular, é a capacidade financeira do estudante para pagar os cursos preparatórios. O terceiro requisito é persistência, que é admirável como um conceito abstrato, mas passa a ser somente uma outra forma de burlar o sistema: se você fizer o concurso várias vezes, eventualmente irá passar, certo? E então uma outra indústria surge, "educadores" que passam o tempo ensinando em cursos para preparar aqueles que vão fazer os concursos. Existe até um famoso blogueiro brasileiro que pegou sua "persistência", de mais de 15 concursos, e a tornou famosa na Internet.

Novamente, aqueles que não podem pagar por cursos preparatórios vão ficar em desvantagem, já que o processo é focado em memorização e repetição ao invés de inteligência, resolução de problemas ou raciocínio. Esses concursos do governo exigem que se pague uma taxa, o que significa que sua "persistência" também depende de bolsos grandes, assim você pode ficar pagando por teste atrás de teste.

Aqueles que têm sucesso no concurso vão conseguir um emprego confortável, que paga mais que o equivalente no setor privado e é quase uma posição de tenure [algo parecido à nossa estabilidade]. Eles ganharam a corrida e agora podem sentar e relaxar pelo resto de suas vidas.

Pelo menos há consistência: o sistema do vestibular não é muito diferente do sistema do concurso. Alguém que "treinou" o suficiente para o vestibular provavelmente está apto para "treinar" para os concursos.

Mas deixa um monte de brasileiros sem chance nenhuma.