quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Dia histórico

Hoje foi oficialmente o dia que eu passei mais frio na vida. A temperatura máxima foi -5 °C mas como está ventando a sensação térmica foi por volta de -13 °C. Voltei para casa pedalando e meus dedos dos pés e das mãos quase congelaram, mesmo usando sapato impermeável, meias e luvas grossas.

E amanhã a previsão é de que vai ser mais frio...

Caos total

Ontem quando estava voltando do trabalho para casa, o trem que ia de Ballerup para Copenhague parou no meio da viagem e anunciou que devido a uma ameaça de bomba na estação central em Copenhague o trem só iria até Valby, um distrito da capital. Fiquei um tempão parado dentro do trem, no meio do nada, até que o trem seguiu viagem e em Valby todos desceram. Foi uma confusão, os trens todos parados e eu não tinha o que fazer senão esperar. Depois de um tempo os trens começaram a funcionar de novo e consegui chegar em Copenhague, onde também estava caótico pois a estação estava cheia de gente por causa dos trens atrasados e cancelados. Até que não tive que esperar muito, uns 30 minutos (sendo que o trem é de 20 em 20), até que vi que o trem que estava chegando era o que deveria ter passado 40 minutos antes... No fim, consegui chegar em casa lá pelas 19h30 sendo que saí do trabalho às 16h15.

Hoje quando acordei às 6h vi as ruas tapadas de neve e conferi a temperatura: -4°C. Saí de casa aí pelas 6h40 e fui pra estação de bicicleta, como faço todos os dias, mas depois de quase cair umas 4 vezes me dei conta que não posso mais pedalar na mesma velocidade. Estava preocupado pois achei que ia perder o trem das 7h02 já que normalmente chego em cima da hora quando pedalo rápido, mas consegui chegar aí pelas 7h na estação.

Caos!

A estação estava abarrotada de gente, e achei estranho que o trem para Copenhague ainda não tinha chegado. Quando olhei a tela com os horários me espantei: os trens que estavam parados na estação estavam por volta de 1h atrasados! Era gente correndo pra lá e pra cá, ainda mais que com o COP15 em Copenhague tem um monte de gente que ficou hospedada do lado sueco e estava perdida com a confusão. E que confusão: tinha casos em que o mostrador da estação dizia um destino, no trem dizia outro destino e nos alto-falantes era anunciado um terceiro destino; a janela do maquinista estava aberta e eu perguntei pra ele pra onde o trem ia e ele me disse que nem ele sabia. Ouvi um relato de um cara que estava saindo de um trem e estava puto da vida porque o trem ficou meia-hora parado no meio do nada e voltou para a estação porque o maquinista falou que não tinha idéia pra onde ele deveria ir e mandaram ele voltar.

Enquanto isso o horário do meu trem ia mudando: o que tinha que ter saído às 6h20 estava previsto para 7h15... 7h20... 7h25... 7h30... Achei uma funcionária da Skånetrafiken, a companhia que cuida dos trens, e perguntei porque os trens estavam todos atrasados e ela me disse que a ponte tinha ficado fechada por 1h por causa da neve e por isso os horários agora esculhambaram todos. Eu pensei comigo mesmo: tchê, se fosse no Brasil tudo bem, mas eles aqui não têm neve todos os anos? Será que a essas alturas eles não têm um planejamento à altura quando neva? E o que é pior: a estação em Malmö está sendo reformada, porque é muito pequena e está sendo aumentada, e por causa disso apenas 3 trilhos dos 12 que existem estão funcionando. Imaginem só organizar aquele monte de trens atrasados com apenas 3 lugares na estação! Por isso que estava uma confusão só, eles estavam cancelando alguns trens e mudando o destino de outros para tentar normalizar o tráfego mas entre os passageiros e funcionários era um caos só.

No fim chegou um trem que ia para Copenhague mas era tanta gente que o trem entupiu e eu não consegui entrar. Tive que esperar um outro que chegou depois, mas pelo menos consegui um lugar pra sentar. (O pessoal que pegou na próxima parada não teve tanta sorte, porque o meu trem superlotou também.) No fim eu saí de Malmö depois das 8h, quando eu devia ter saído às 7h02. Pensei que em Copenhague as coisas iriam estar melhores, mas me enganei: todos os trens lá também estava atrasados; tive que esperar quase 30 minutos pelo meu trem que deveria passar de 10 em 10. Já estava me conformando que quando chegasse em Ballerup teria que caminhar 25 minutos até o trabalho porque eu não ia chegar a tempo de pegar o último ônibus que passa às 9h08. Desci em Ballerup aí pelas 9h25 e estava começando minha caminhada sob neve e frio de -4°C quando vi o ônibus (atrasado) chegando na parada. Ufa! Pelo menos alguma coisa tinha que dar certo.

No fim cheguei no trabalho às 9h40, 3 horas depois de sair de casa. Lembrem, isso é primeiro mundo...

E amanhã vai ser pior: por causa da visita do Obama a ponte vai ficar fechada na hora do rush, entre 7h30 e 8h30 durante a manhã e 16h30 e 17h30 à tarde. Já avisei aqui que vou trabalhar de casa. Tá doido!

Atualizado: E pra voltar pra casa hoje mais 3h15. Para terem uma idéia de como ficou o trânsito com a neve, o ônibus que eu pego pra ir do trabalho à parada do trem que normalmente leva 5 minutos hoje levou 1 hora e 5 minutos. No fim trabalhei hoje 6 horas e gastei 7 para ir e voltar.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Coisas ruins da Suécia

Como ultimamente tenho só metido o pau no Brasil, resolvi mudar o discurso um pouco e falar sobre as coisas que são ruins aqui na Suécia. Afinal, sou democrático. :-)
  • Serviços e atendimento em geral: Aqui na Suécia a desigualdade é bem menor, não há aquele abismo salarial entre os que ganham muito e os que ganham pouco. Isso significa que ninguém ganha um salário de fome, e que contratar alguém pra fazer qualquer serviço, por mais simples que seja, não é barato. Conseqüência: as lojas, supermercados, bancos, bares e tudo o mais vão ter o mínimo de funcionários possíveis.

    Canso de ir no supermercado, gastar 5 minutos para comprar 2 ou 3 itens e ficar 30 minutos na fila porque dos 15 caixas do mercado apenas uns 4 ou 5 estão abertos. Não há empacotadores, claro, e tenho que ensacar as coisas com pressa porque caso contrário vão chegar as coisas do próximo cliente e tenho que desocupar o espaço. Não há separação de funções, as mesmas pessoas que trabalham no caixa fazem outras coisas no mercado também, assim se o movimento é pouco o funcionário sai do caixa e vai fazer outra coisa.

    Isso significa também que se for possível colocar uma máquina para fazer o serviço, vão fazer. Por exemplo, para comprar passagens de ônibus e trens, ou renovar o cartão, usa-se máquinas; para retornar as garrafas ou latas no mercado, usa-se máquinas; e por aí vai.

    Como já é caro pagar o salário normal, hora extra então nem pensar. Se chegar numa loja 5 minutos antes de fechar e estiver interessado em comprar alguma coisa, quando chegar na hora de fechar vão avisar que estão fechando a loja e praticamente te expulsar do lugar. O tempo deles vale tanto quanto o teu, então se quiseres ser atendido com calma chegue antes!

  • Filas: Conseqüência do item acima. Como a maioria dos lugares terá poucos atendentes, sempre há fila e não espere atendimento rápido. Para terem uma idéia, sabem aquela maquininha onde se aperta um botão e a máquina cospe uma senha? Foram os suecos que inventaram.

    Uma das coisas que mais me dá raiva é quando saio à noite em algum pub ou discoteca e vou no balcão comprar uma cerveja. Muitas vezes leva-se 20 minutos para ser atendido! Há apenas uma ou duas pessoas no balcão, e não existe o esquema do cartão como no Brasil onde só se marca um X, então o processo é assim: o cliente pede um drink qualquer, o atendente vai lá fazer, uns 5 minutos depois ele traz o drink, o cliente entrega o cartão de crédito, o cara do bar vai lá na máquina, digita algumas coisas, espera mais um minuto para processar, pega o recibo, devolve pro cara assinar, pega o recibo, coloca junto na pilha com os outros, e só aí atende o próximo cliente. Imagina quanto tempo não leva para atendar umas 30 pessoas esperando no balcão.

    Aqui enquanto um atendente atende um cliente, ele nem olha pros lados: os outros clientes não existem. Se fosse no Brasil, o atendente enquanto faz o drink ou espera a máquina processar o cartão já pede pro próximo cliente o que ele quer e se for algo simples como uma lata de cerveja já vai atendendo para agilizar. Esperar tal jogo de cintura de um sueco é perda de tempo.

  • Escuridão no inverno: Muitos dos meu amigos no Brasil me perguntam: “como tu agüenta morar naquele frio?” mas na verdade aqui no sul da Suécia não é tão frio assim. O inverno é bem mais comprido do que o do RS, obviamente, mas não é muito mais frio não. Além disso, o frio é só quando se está na rua porque qualquer lugar fechado (inclusive ônibus e trens) possui calefação e daí a temperatura é bem agradável, lá por volta de 20°C.

    Agora, a escuridão é um pé no saco. Como Malmö fica a 55 graus de latitude, há muita variação na quantidade de luz entre o verão e o inverno. Enquanto que no verão o sol nasce aí por umas 4 da manhã e se põe quase à meia-noite, no inverno o sol nasce aí pelas 8h30 e se põe às 15h30. Considerando também o fato de que muitas vezes fica o tempo todo nublado, é perfeitamente possível que 1 ou 2 semanas passem sem que seja possível ver a luz do sol. Preciso falar que é deprimente?
  • Öresundståg: Eu achava que os trens da Suécia funcionavam bem. E funcionam, isso se não precisar andar neles todos os dias. De uma maneira geral eles são pontuais, mas vira e mexe eles atrasam, estragam, dão pane, ou coisa parecida. O Öresundståg, o trem que eu pego todos os dias para atravessar a ponte que liga a Suécia com a Dinamarca seguido dá problema. A demanda é muito grande, e não podem colocar mais vagões porque a plataforma na estação de Malmö é pequena (estão reformando a estação justamente para resolver isso), então muitas vezes o trem vai completamente lotado. Quem é de Santa Maria e já pegou um ônibus lotado para a UFSM, saiba que às vezes o trem aqui é pior. Às vezes o trem aparece só com metade dos vagões, ou é cancelado e daí o próximo vai com o dobro de gente, um caos. Isso se não der um problema qualquer na metade do caminho e todo mundo tiver que descer.

    Esses problemas não acontecem todos os dias, mas pelo menos 1 ou 2 vezes por semana dá algum imprevisto. Para quem pega trem todos os dias, é um stress. Não é à toa que li no jornal aqui que o serviço de trens é um dos que teve a pior avaliação numa pesquisa feita junto à população. Ao contrário do que se pensa no Brasil, nem tudo funciona perfeitamente no primeiro mundo.

  • Os suecos não são acostumados a gentilezas: Como falei antes a desigualdade na Suécia é bem menor, inclusive entre os sexos, pessoas de idade e tudo mais. Todos se respeitam mas isso significa também que não há tratamento diferenciado: aqui não há, como no Brasil, fila para idosos ou esse tipo de coisa. Isso por si só não é ruim, mas exatamente por isso não são acostumados a receber gentilezas ou favores: eles não sabem muito o que fazer quando alguém deixa eles passarem na frente na fila do mercado porque tem só 1 ou 2 itens, ou quando se cede o lugar no ônibus para alguém mais de mais idade (alguns se ofendem, inclusive). E olha que isso não aconteceu só comigo. Eu entendo o ponto de vista deles, de que não precisam de favores, mas acho que cada vez que alguém tenta ser gentil o mundo melhora um pouquinho. Não mata nem diminui ninguém.

  • Os suecos são um pouco fechados demais pro meu gosto: Isso não é exclusividade deles, é uma característica do povo escandinavo em geral. Tá certo que não estou sendo muito justo com eles porque eu, sendo latino, vou achar qualquer povo não-latino fechado mas às vezes dá um pouquinho nos nervos. Essa piadinha que achei é bem engraçada:
    Dois dinamarqueses, noruegueses, finlandeses e suecos encalham em 4 ilhas distintas. Quando todos são finalmente salvos verificou-se que os dinamarqueses se tinham aliado na busca pela sobrevivência, os noruegueses estavam pescando e os finlandeses já tinham cortado as árvores todas da ilha. Os suecos, esses, ainda estavam à espera de alguém que os apresentasse.
    Tirei essa piadinha do blog de um português que foi morar na Suécia e também estranhou certas coisas. Vale a pena visitar os outros posts que ele fez sobre comportamento dos suecos.

  • Systembolaget: Na Suécia a venda de qualquer coisa com mais de 3% de álcool só é permitida na Systembolaget, uma loja do governo que só vende isso. Não é possível comprar no mercado (mas é claro que bares, danceterias, restaurantes também podem vender). Nos sábados a Systembolaget fecha às 14h (e não abre aos domingos), então se decidir beber de última hora está ferrado. E é melhor não ir com pressa aos sábados, porque vai estar lotado e a fila vai ser gigante. Nem vou comentar o preço, só vou dizer que um monte de gente vai até a Alemanha só para comprar bebida e trazer para a Suécia.

  • Festas que acabam às 3h: Todos os lugares fecham às 3h no máximo. Precisa falar mais alguma coisa?
Isso é o que consigo me lembrar no momento. Com certeza tem mais, quando me lembrar do resto faço um outro post.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

“Apaixonado por carro como todo brasileiro”

Lembram dessa frase nas propagandas da Ipiranga? Já faz algum tempo que quero blogar sobre uma diferença cultural que percebi quando vim para a Suécia, mas a preguiça nunca me deixou. Hoje vi um post interessante no blog Dinheirama e resolvi arregaçar as mangas e finalmente escrever sobre o assunto.

Tenho que confessar: nunca fui lá muito interessado em carros; carro para mim sempre foi um meio de transporte capaz de levar-me do ponto A até o B. Claro que é muito legal ter um carro bonito, lembro que no Brasil eu gostava muito do Peugeot 206 e é óbvio que gostaria de ter uma BMW ou Audi ou então uma Ferrari ou um Porsche (posso sonhar, não posso?). E eu gosto de dirigir, a primeira coisa que fiz quando completei 18 anos foi tirar a carteira de motorista.

Acontece que ter um carro pra mim nunca foi prioridade. Sem dúvida carro é um conforto, é bom ter, mas eu sempre achei que eu não precisava realmente de um. Eu podia pegar o ônibus para ir trabalhar, e ir de táxi para as baladas já que Santa Maria (RS) onde eu morava não é muito grande então as corridas de táxi são baratas. Eu achava que carro era um investimento muito caro, tanto para comprar como para manter (seguro, impostos, manutenção, etc.) e como pra mim não era algo indispensável eu preferia gastar o meu dinheiro em outras coisas que me traziam mais prazer ou até mesmo apenas guardá-lo, se mais tarde eu mudasse de idéia poderia dar uma entrada maior ou até mesmo comprar à vista.

Mas acredito que eu seja parte de uma minoria. A grande parte dos meus amigos comprou um carro assim que começou a trabalhar. Eu cansei de ter que responder à pergunta “e aí, quando vai comprar um carro?” a meus amigos e parentes e de ouvir “abre essa mão de vaca, deixa de ser pão duro e compra um carro de uma vez”. Obviamente devo ter algum problema. Quando eu respondia “ter um carro é legal, mas não tenho vontade de comprar um no momento” pela reação da outra pessoa eu imaginava que ela estava pensando em me internar num manicômio ou algo assim.

Demorei um tempo para entender que eu estava desafiando a ordem das coisas. Carro não é meio de transporte; é símbolo de status. Agora que tenho um emprego, tenho renda, não posso mais andar de ônibus. Tenho que ter meu próprio carro, uma afirmação da minha nova realidade sócio-econômica. Não interessa se tenho que financiar o carro em 99 prestações, se vou me apertar, com o carro eu sou diferente. Sou alguém. A prova disso é que muita gente compra um carro sem ter a mínima condição para tanto. O post que mencionei acima aborda exatamente isso:

Nem todo mundo pode ter um helicóptero. Engraçado, uma afirmação deste tipo raramente gera algum tipo de discussão - particularmente, nunca vi alguém discordar. O raciocínio por trás da verdade parece óbvio: um bicho desses custa uma fortuna, logo, só os muito ricos podem comprá-lo. Pois é, mas "antes fosse só isso", como já vi alguns deles dizerem. A questão está no custo de manutenção e nas agendas de reparo, afirmam também revistas especializadas.

Mas por que falar de helicópteros por aqui? Claro que estou longe de tal sonho, portanto o tema não tem relação nenhuma com a minha realidade. A verdade é que eu resolvi trazer tal afirmação para nosso dia a dia, tentando adaptá-la: tenho dito com frequência que nem todo mundo pode ter um carro.


Isso acontece freqüentemente também:

Tão logo o carro sai da concessionária ou loja e vai parar na garagem, algo mágico acontece em torno das finanças de muitas famílias: o automóvel se transforma em helicóptero. Quem paga o combustível do dia a dia? E o seguro, o IPVA, a troca de óleo, o pedágio, a manutenção preventiva (revisão), a troca de pneus, os pequenos reparos, o estacionamento, a lavagem? Advinhe o desfecho: a família deixa de priorizar momentos de alegria, qualidade de vida e bem-estar porque as despesas e o pesado carnê estrangulam suas finanças. Por 36, 48, 60, 72 meses.


E continua:

Se não for assim, o brasileiro não consegue comprar! Adoro ouvir frases como essa. O som das palavras é entusiasmado, repleto de sentimento e emoção. São justificativas vazias. E só. Na prática, o que acontece é muito diferente: o valor do carro, inflado pelos juros do financiamento a perder de vista, soma-se ao mundo de contas e despesas e, muitas vezes, o caos se instaura. A razão de alegria vai ficando encostada, mal tratada, perdendo muito de seu valor.

O conforto antes proporcionado se converte em carnês atrasados, impostos devidos e falta de manutenção. Com peças do mercado paralelo, a segurança começa a ficar comprometida e os passeios já não são tão divertidos. O carro enguiça, para no meio da serra e exige destreza quando seus pneus, completamente carecas, insistem em complicar a direção na chuva. Mas, é claro, o que importa é que a família tem um carro, ou melhor, um helicóptero. Imagine a cara dos vizinhos olhando para aquele bicho estacionado logo ali...


Hum... Preste a atenção na frase: ”Imagine a cara dos vizinhos olhando para aquele bicho estacionado logo ali”.

Tem mais:

Você já deve ter se dado conta de que sou daqueles que compra à vista, com desconto. Compartilho a breve narrativa da compra de meu automóvel atual, nos idos de 2007. Eu tinha cerca de R$ 45 mil para comprar o carro, guardados e poupados com muito trabalho. Ao analisar as opções, tarefa que levou 6 meses, optei por um carro de pouco mais de R$ 40 mil (completinho). Com a grana que tinha pude pagar o licenciamento, seguro, imposto etc. Ao contar feliz a novidade para os amigos, ouvi: "Burro, devia ter usado a boa grana como entrada e sair com um carrão bem melhor. Ou podia ter pego um usado importado ou de uma categoria acima, muito melhor também". Brindei ao burro e todos rimos bastante. O resto é história.


Bingo! Ele é burro, porque o correto é desfilar com o melhor carrão possível. Não interessa se não vai ter dinheiro para mais nada, nem para manter o carro, o que interessa é que é um carrão, que é de uma categoria acima.

Veja bem, não estou dizendo que todo mundo tem que andar de Fusca, nem criticando quem quer ter um carro bom. Quem não gosta de andar bem vestido, ou ter móveis bonitos no apartamento, ou um relógio legal? Tudo isso também é símbolo de status, afinal. E cada um gasta seu dinheiro da forma que melhor lhe convém. Só estou constatando uma realidade: a preocupação com o carro e o status no Brasil é muito grande (não só no Brasil, nos EUA também, mas só posso falar da realidade que conheço). Veja só, em outro post no mesmo blog:

Tratar da compra de um automóvel é assunto que sempre me traz muitos problemas. Por que? Ora, a matemática aplicada aos recursos disponíveis pelas famílias comprova, em muitos casos, que a compra do carro não é uma atitude saudável. Em alguns casos, tal gasto não é sequer necessário. Mal termino de demonstrar os efeitos da compra e os ruídos começam.

A fala ensaiada "Mas o crédito hoje em dia facilita a compra do carro. Afinal, agora podemos parcelar usando juros mais baixos e através de prestações também mais em conta" é uma das preferidas dos jovens loucos para ter um carro. O apelo "Usar o transporte público e andar de bicicleta são atos que envergonham meus filhos e acho que as prestações cabem em nosso orçamento" também é comum.


Guarde esta frase, vou comentar sobre isso depois: “Usar o transporte público e andar de bicicleta são atos que envergonham meus filhos”. No mesmo post:

Portanto, para o cidadão comum, carro não é investimento, não é ativo. Carro é passivo, é sinônimo de despesas e gastos extraordinários capazes de furar qualquer orçamento. Ah, e sem drama por favor. Isso é um alerta, não uma mensagem apocalíptica pregando a caminhada diária para o trabalho e dias de aperto no transporte público.

Se preferir, dou o recado de forma mais direta: há aqueles que, independente da oferta de crédito e do "chorôrô" da família, não podem ter um carro. Nem do mais simples e barato. Simples assim, muito embora muitas pessoas adorem vir até aqui e insistir nas patéticas desculpas que envolvem sociedade, cobrança, vergonha e orgulho. Interessante, humildade na compra do carro pouca gente gosta de discutir. Por que será?


Bom, já estou batendo demais na mesma tecla. Pra mim é escancarado que para muita gente carro é não apenas meio de transporte, mas símbolo de status e ascensão social. E muita gente faz o possível e impossível para ter um veículo que é totalmente incompatível com sua capacidade financeira, tudo pela oportunidade de mostrar o possante para o vizinho, ou para as gatinhas na balada, enfim. Para ser alguém. Porque quem anda à pé não pode ser alguém.

Mas aonde quero chegar? Quero fazer um paralelo com a Suécia.

Depois que vim para a Suécia fui exposto a uma cultura bem diferente. Uma cultura onde andar de ônibus ou de bicicleta não é vergonha nenhuma; pelo contrário, é totalmente encorajado. E aprendi com isso algumas coisas.

Na Suécia, é claro que as pessoas (estou falando de forma geral, não dá pra botar o povo todo de um país no mesmo saco e exceções sempre vão existir) também gostam de ter um carro legal mas não têm essa obsessão toda de comprar um carro acima de suas possibilidades. Nem de já sair comprando um carro só porque arranjou um emprego. Aqui, o povo compra um carro porque precisa ou tem as condições para isso. E muitos que têm carro mesmo assim vão trabalhar de ônibus ou de bicicleta.

Por que isso? Acontece que a Suécia é um país muito mais igualitário que o Brasil (não que seja muito difícil, o Brasil é um dos países mais desiguais do planeta) e não existe muito esse conceito de classe como existe no Brasil. Claro que há ricos e pobres, mas não é nem de longe o mesmo abismo. Não existe a preocupação de termos que nos diferenciar de, ou nos misturarmos com, a “classe que anda de ônibus”, da “classe que anda de bicicleta”.

Claro que um grande fator é que não dá para comparar a qualidade do transporte público. Os ônibus são limpos e silenciosos, em todas as paradas há a placas com as linhas e os horários (muitas delas são eletrônicas e mostram em tempo real quanto tempo falta para passar o ônibus) e os ônibus são na maioria das vezes pontuais. Se preferir pedalar, há ciclovias por todo o lugar, a maioria das calçadas tem espaço reservado para o tráfego de bicicletas, e quando não tem nenhum dos dois é perfeitamente seguro andar de bicicleta na rua porque todos os carros respeitam. (Em contrapartida é exigido que as bicicletas tenham buzina, luzes frontais e traseiras e refletores nas rodas. Se estiver andando na rua é obrigatório seguir todas as leis de trânsito, inclusive dando sinais de mão se for dobrar à esquerda ou direita. É obrigatório sempre dar preferência ao pedestre, se ele botar o pé na faixa tem que parar. Para tudo isso há multa para o descumprimento.)

Mas mesmo assim acho que grande parte do fator é cultural. Mesmo que no Brasil o transporte público fosse bom, e fosse seguro andar de bicicleta, será que seria normal ver gente engravatada no ônibus para ir trabalhar? Ver seu chefe chegando no serviço de bicicleta? Eu sinceramente tenho minhas dúvidas.

Aqui tudo isso é a coisa mais normal no mundo (acho que na Dinamarca mais ainda que na Suécia, vejam as fotos aqui das pessoas voltando do trabalho ou das bicicletas estacionadas na calçada). Já vi gente de terno e gravata pedalando. E esse comportamento é altamente estimulado pelos governos. Sabem por quê? Por uma realidade muito simples: as cidades não comportam que todo mundo tenha carro. Não há espaço. Não há lugar para todos.

Em absolutamente todos os lugares aqui tem que pagar para estacionar, e muitas vezes no centro não é nem possível passar de carro, o espaço é reservado apenas para pedestres (vide aqui e aqui). Estacionar é um problema, e os prédios não têm garagem: todo mundo têm que deixar o carro na rua (e pagar por isso, claro). No meu prédio há lugares na rua reservados, mas não para todos os apartamentos; o tempo médio de espera por uma vaga está em três anos.

Lembro que uma vez o Paulo Sant'Ana (pros leitores de fora do RS, é um famoso comentarista gaúcho) comentou que para ele um dos motivos do centro de Porto Alegre ser tão sujo e abandonado é porque carros não podem passar por ali, e que se isso fosse mudado o centro iria revitalizar-se. Na época concordei com ele, mas agora vendo os exemplos na Europa fui obrigado a mudar totalmente minha opinião. Isso que ele está pregando vai totalmente contra a direção que os países daqui estão tomando, e como eu conheço ambos os exemplos posso dizer sem medo de errar que o modelo daqui é muito melhor. Quanto menos carros, melhor fica.

Olhe o caos nas cidades brasileiras na hora do rush. A maioria dos carros tem apenas um ocupante. Faz sentido isso? Faz sentido o cara tirar o carro da garagem, gastar um tempão no congestionamento e gastar gasolina e poluir o ambiente para chegar no trabalho, estacionar e deixar o carro lá parado o dia inteiro ocupando espaço? Por que não investir no transporte público, por que não estimular as pessoas a ir de bicicleta e deixar o carro em casa?

Outro desestímulo é que os carros na Suécia não são nada baratos em comparação com o resto da Europa. Na Dinamarca é muito pior, tanto que eles consideram os carros na Suécia baratos. O imposto é caro, o seguro também. Ouvi falar que para tirar a carteira de motorista na Suécia, se o cara fizer todas as aulas teóricas e práticas, custa uns R$ 5.000. E para poder andar com o carro é obrigatório ter seguro que cobre terceiros, mas não aquele que protege você dos terceiros e sim o que protege os terceiros de você: se você bater e machucar alguém ou danificar alguma coisa a vítima está totalmente coberta pelo seu seguro. Não é como aqui onde se alguém é atropelado ou tem o carro danificado tem que torcer para o culpado ser rico e ter dinheiro para pagar, ou fica vendo navios.

Voltando à questão do status: no Brasil, ainda mais importante que ir trabalhar de carro é sair na noite de carro. Chegar na balada de táxi já não é visto como algo tão legal (se veio de táxi é porque não tem carro), e quem tem coragem de chegar de ônibus ou de bicicleta? Vai explicar pra alguém daqui que é popular no Brasil o povo se reunir num posto de gasolina para beber (!) e ficar exibindo as máquinas, quando não o sistema de som caríssimo e impor suas preferências musicais goela abaixo dos outros.

Aqui todo mundo vai na balada de ônibus ou bicicleta. Sabem por quê? Simplesmente porque é proibido beber e dirigir, é impensável, absolutamente ninguém faz isso. Já vi duas mulheres muito bonitas e bem vestidas indo embora da balada de bicicleta, uma pedalando e a outra na garupa. É normal. Na verdade até isso muita gente evita de fazer, porque se a pessoa for pega pela polícia andando de bicicleta com nível de álcool no sangue acima do limite ela tem que pagar multa e se tiver carteira de motorista é apreendida, como se estivesse dirigindo um carro. Táxi é uma opção para poucos porque é extremamente caro.

Por causa de tudo isso não faz muito sentido ter um carro só por causa do status, afinal o que adianta se não dá pra chegar de carro nas baladas e mostrar pras gatinhas? A menos que queira ir para a balada e ficar bebendo água... Já no Brasil a gente acha que o nosso direito de sair de carro na noite vale mais do que a vida das pessoas que a gente vai colocar em risco quando voltamos dirigindo bêbados para casa. Tudo pelo status.

Mas mesmo assim é claro que existem na Suécia as pessoas que têm dinheiro e compram um carro legal, acima da média. Sabem o que muitas delas fazem? Mandam tirar o nome do modelo ou a potência do motor da lataria, para não chamar atenção. Porque têm vergonha. Porque não querem passar uma imagem de que se acham superiores às outras. Porque não querem que as outras pessoas achem que elas compraram o carro só para aparecer.

Surpreendente, não é? Já imaginou alguém no Brasil pagando R$ 100.000 por um carro ou caminhonete e mandando tirar o nome e a potência da lataria? Quando ouvi essa história a primeira vez achei a maior bobagem do mundo, mas agora que estou aqui por quase 3 anos estou começando a entender melhor. Virando sueco, talvez?

Moral da história: aqui não se dá tanta bola para carro. Isso é uma conseqüência de que de forma geral ninguém dá a mínima para o que você tem, tanto que quem tem não quer demonstrar.

No Brasil ainda dividimos a sociedade em castas. Duvida? Você tem empregada? Conhece alguém que tem? Digamos que ela trabalhe 40h por semana na sua casa, você aceita pagar para ela 60% do que você ganha, pagar FGTS, décimo-terceiro, férias? Não? Acha um absurdo? E por quê? Por que você merece e ela não? Não será porque considera o seu tempo, seu esforço, mais importante do que o dela?

Será que tanta gente abomina o ônibus porque o serviço é ruim (e é ruim mesmo, todo mundo sabe disso) ou porque vai se misturar com os “comuns”, a casta dos sem-carro? Será que não se anda de bicicleta porque é perigoso (e é muito, realmente) ou porque andar de bicicleta não pega bem para alguém mais abonado? Eu acho que é uma mistura dos dois, e você?

E por que os governos não investem no transporte público, em ciclovias? Elementar, meu caro Watson: porque isso é considerado coisa de pobre. Não dá voto. A classe média não está preocupada com isso, diminuir o IPI dos automóveis é muito mais importante porque isso sim é progresso: dá pra todo mundo comprar carro em 99 vezes, mostrar pro vizinho o “modelo superior”, e ficar exibindo o possante por horas enquanto está trancado no congestionamento cheirando fumaça todos os dias e se achando superior a todos os outros pobres coitados que estão ali no ônibus ao lado e não podem comprar um carro. Enquanto isso, na Europa, as pessoas estão deixando os carros em casa e andando de bicicleta, ou misturando-se aos plebeus nos ônibus, e quase não há buzinas ou poluição, o trânsito flui, se chega muito mais rápido ao destino e durante a semana as ruas têm mais vaga para quem precisa estacionar. Sem falar que é mais barato. Coitados dos europeus, não sabem como é bom ir trabalhar de carro. É progresso!

Em Faxinal do Soturno, uma cidadezinha do interior do RS onde mora minha mãe e onde qualquer lugar está no máximo a 10 minutos à pé de qualquer outro lugar, as pessoas vão de carro trabalhar. Ou quando tem um evento no clube, ou um casamento na Igreja, todo mundo vai de carro, mesmo aqueles que moram a 2 quadras dali. Faz sentido?

Pensem nisso. E vou ficando por aqui, feliz, andando de bicicleta pra lá e pra cá... :-)

P.S.: Se você de alguma forma se encaixa no perfil aqui descrito e se ofendeu, por favor não interprete como uma crítica pessoal. Cada um faz o que quiser com seu dinheiro. Só estou fazendo um questionamento à cultura do carro como símbolo de status, à obsessão das pessoas em ter um em detrimento à sua própria saúde financeira, ao achar que carro é sinônimo de progresso. Pense no que escrevi e tire suas próprias conclusões. Os comentários estão abertos pra quem concorda e discorda. Obrigado.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Anvil! A história de Anvil

Anvil é uma banda de heavy metal do Canadá que influenciou várias bandas como Metallica, Guns n' Roses, entre outras. Eu pessoalmente não conhecia a banda mas resolvi assistir ao documentário Anvil! A história de Anvil porque me disseram que era muito bom.

O veredito: você que estiver lendo isto, mesmo que você odeie heavy metal, mesmo que você só escute pagode, mesmo que você odeie documentários, assista a esse. Não vai se arrepender, prometo. É excepcional. Impossível não se emocionar.


(Assistir no YouTube)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O homem por trás do mito

O homem por trás do mito:



(Link para o vídeo)

Sem chance nenhuma

Quem me conhece sabe que vira e mexe estou criticando o Brasil. Não o faço porque agora moro no exterior e quero dar uma de esnobe, pelo contrário: só depois de vir para o exterior que eu comecei a valorizar um monte de coisas que o Brasil tem e eu não dava muita bola. E só aí me dei conta do potencial que o Brasil tem, e não aproveitamos; como poderíamos ser uma das maiores nações da Terra, e não somos.

Todo mundo sabe que é muito mais fácil de enxergar os problemas quando são vistos de fora. Por isso que existem consultores de empresas; por isso que a gente quando não sabe o que fazer (seja no emprego, relacionamento, questões familiares) pede conselhos a pessoas de fora. E é por isso que eu gosto de ler blogs de estrangeiros que moram no Brasil e escrevem sobre o nosso país, pois eles vêem tudo de uma outra perspectiva. Perspectiva essa que geralmente é mais objetiva e menos influenciada por questões culturais, partidárias, etc.

Infelizmente o brasileiro tem um problema grave, que é de não aceitar críticas vindas de um estrangeiro. Sabemos que temos milhares de problemas, falamos mal do próprio país todo o dia, mas quando um estrangeiro diz o que estamos cansados de saber daí parece que caiu o mundo. E não sou eu que estou falando: Rachel, uma nova-iorquina que morou no Rio, já escreveu sobre isso duas vezes (em inglês) e concordo plenamente com ela. O caso mais recente foi do Robin Williams que fez piada sobre as Olimpíadas no Rio; eu pessoalmente achei a piada bem sem graça mas a imprensa toda caiu de pau dizendo que o ator foi viciado em cocaína (qual a relevância disso?) e o Comitê Olímpico Brasileiro quer processá-lo. Façam-me o favor! Em vez de se preocuparem com uma piada sem graça, por que não se perguntam o que leva um comediante a fazer uma piada assim? Será que não é porque a imagem do Rio estar associada a prostitutas e drogas? Lembro do episódio dos Simpsons no Brasil que também deu o que falar alguns anos atrás: os Simpsons passaram mais de 20 anos criticando o modo de vida americano (de forma ácida e dura muitas vezes), fazendo piada de ingleses, franceses, etc. e todo mundo achava engraçado mas quando fazem piada do Brasil daí é demais! E também foram ameaçados de processo por alguém do Rio na época. Coitadinhos dos políticos, tão sensíveis... Mas não são só os políticos, o brasileiro em geral só gosta quando os estrangeiros falam bem do país (os clichês de sempre: clima, praia, carnaval, mulheres, festas), mas torce o nariz quando ouve qualquer coisa que possa remotamente ser uma crítica.

Mas estou desviando do assunto. O objetivo do post é outro. Estava dizendo que gosto de ler a opinião dos estrangeiros, principalmente as críticas, porque acho elas mais objetivas e verdadeiras (o que não significa que sempre estão corretas ou sempre concordo com elas) já que vêm de alguém de fora que enxerga as coisas de outra perspectiva. E li duas coisas recentemente que achei tão perfeitas e verdadeiras que quero mencioná-las aqui.

A primeira foi um post que comenta a opinião de Richard Feymann, um físico ganhador do prêmio Nobel que deu aula na Academia Brasileira de Ciências entre 1951 e 1952, sobre o ensino de ciências no Brasil. Peço encarecidamente que pare de ler este meu post agora e clique no link aí do começo do parágrafo, leia o texto e depois volte pra cá. Não tenho pressa, posso esperar.

Leu? Que bom.

A segunda coisa foi em um blog que assino, de um porto-riquenho que mora no Brasil. Em um dos posts ele escreve, em inglês, sobre o sonho de muitos brasileiros de fazer faculdade e passar em um concurso e porque ele considera que todo esse processo é um atraso. Tem tantas verdades ali que me obriguei a reproduzir o post, traduzido em português:



Sem chance nenhuma
3 de dezembro de 2009

Pergunte a um brasileiro o que ele pensa que vai trazer a ele uma vida melhor e ele pode responder duas coisas: estudar na universidade e um emprego público. O problema é que os processos que as pessoas têm que seguir para conseguir ambas as coisas condenam a sociedade brasileira à mediocridade.

O primeiro é o vestibular, o teste anual conduzido por qualquer universidade para admitir candidatos. Nos EUA os estudantes são julgados pelas notas no SAT [teste parecido com o nosso vestibular], cartas de recomendação, ensaios musicais, serviços comunitários, e é claro, as notas na escola. No Brasil, tudo se resume ao teste e sua capacidade de superar os outros estudantes. Pelo que posso dizer dos exemplos que vi, esses testes não medem a inteligência, capacidade de raciocínio ou de resolver problemas. Isto é evidente pelo fato que o vestibular testa os candidatos em tópicos irrelevantes (dependendo do curso); por que um candidato ao curso de filosofia tem que ser testado no seu conhecimento de química? Uma prova recente tinha uma lista absurdamente longa de matérias: português, matemática, história, física, geografia, química, biologia e inglês.

Um desempenho bem sucedido no vestibular envolve três coisas. Primeiro, você deve ser capaz de decorar. Se você não consegue gravar e reproduzir fatos e fórmulas, o vestibular é um desafio impossível. Segundo, é melhor que você consiga regurgitar os quatro anos do ensino médio [não seriam três, ou agora mudou?] se você passar de seis meses a um ano em um cursinho pré-vestibular. Isso gira uma enorme quantidade de dinheiro na economia brasileira, e o estudantes, chamados de "feras", estão preparados como atletas correndo uma prova de 100 metros rasos. Terceiro, e finalmente, estudantes de escolas particulares têm uma vantagem óbvia sobre seus colegas de escolas públicas. Não apenas as escolas particulares são melhores como podemos assumir que seus pais serão capazes de pagarem para fazer o vestibular em meia dúzia de universidades, mais os cursinhos necessários.

O resultado é simples: estudantes que freqüentaram escolas particulares vão melhor no vestibular e acabam nas universidades públicas (que no Brasil são gratuitas), e estudantes de escolas públicas nas particulares (que são pagas). É uma generalização, claro, mas a verdade é que um estudante de um bairro pobre provavelmente vai freqüentar uma escola pública que não o educa de forma adequada, além de que ele não pode pagar um cursinho nem pagar por meia dúzia de vestibulares. Suas chances de sucesso são pequenas. Sua única opção (assumindo que ele tem uma) é trabalhar para pagar a mensalidade em uma universidade privada. De novo, estou ciente que essa é uma generalização e sempre existirão exceções à regra.

Como resultado, o Brasil tem visto um surto de abertura de novas universidades particulares, muitas das quais são como os community coleges dos EUA ao invés de instituições privadas como Cornell. Surpreendentemente, 9 em cada 10 instituições de curso superior são privadas, absorvendo 75% de todos os estudantes brasileiros. A certificação dessas faculdades/universidades é um grande problema, já que em Recife há uma dessas em cada esquina... mas esse é um assunto para outro dia.

Dando crédito ao Brasil, um esforço tem sido feito para quebrar esse ciclo vicioso com a criação do ENEM. Este exame parece ser mais focado nos básicos: língua, matemática e capacidade de raciocínio. Também permite que os estudantes paguem apenas por um teste que é reconhecido por uma longa lista de universidades. É um passo na direção certa, onde as capacidades natas do estudante têm um peso maior do que a capacidade de memorização ou possibilidades financeiras. Entretanto, há uma reviravolta digna de novela (este é o Brasil, afinal). O teste do ENEM vazou, e enquanto um segundo teste foi feito e agendado, algumas universidades decidiram não aceitar o seu resultado. Talvez será melhor no ano que vem e eventualmente o teste vai "pegar". Até lá, os estudantes se preparam como velocistas, correndo em direção ao vestibular mas sem se preparar para a maratona (ou seja, a vida). Ah, e os pobres estão correndo descalços.

A segunda praga é o concurso. É espantoso para mim, sendo estrangeiro, pensar que o governo julga os candidatos baseados em um teste ao invés do currículo, educação, entrevistas e cartas de recomendação. Mas isto é perfeitamente normal no Brasil. Alguns podem argumentar que o propósito é deixar o processo objetivo, e este é um objetivo nobre. A realidade, entretanto, é que essas oportunidades acabam sendo aproveitadas não necessariamente pelos mais capazes ou inteligentes, mas por aqueles que aprenderam a jogar o jogo.

Até aqui você provavelmente consegue adivinhar dois requisitos. Memorização é obviamente um deles, pois se espera que você memorize uma quantidade infinita de conhecimento sobre qualquer vaga que estiver competindo. O segundo, como o vestibular, é a capacidade financeira do estudante para pagar os cursos preparatórios. O terceiro requisito é persistência, que é admirável como um conceito abstrato, mas passa a ser somente uma outra forma de burlar o sistema: se você fizer o concurso várias vezes, eventualmente irá passar, certo? E então uma outra indústria surge, "educadores" que passam o tempo ensinando em cursos para preparar aqueles que vão fazer os concursos. Existe até um famoso blogueiro brasileiro que pegou sua "persistência", de mais de 15 concursos, e a tornou famosa na Internet.

Novamente, aqueles que não podem pagar por cursos preparatórios vão ficar em desvantagem, já que o processo é focado em memorização e repetição ao invés de inteligência, resolução de problemas ou raciocínio. Esses concursos do governo exigem que se pague uma taxa, o que significa que sua "persistência" também depende de bolsos grandes, assim você pode ficar pagando por teste atrás de teste.

Aqueles que têm sucesso no concurso vão conseguir um emprego confortável, que paga mais que o equivalente no setor privado e é quase uma posição de tenure [algo parecido à nossa estabilidade]. Eles ganharam a corrida e agora podem sentar e relaxar pelo resto de suas vidas.

Pelo menos há consistência: o sistema do vestibular não é muito diferente do sistema do concurso. Alguém que "treinou" o suficiente para o vestibular provavelmente está apto para "treinar" para os concursos.

Mas deixa um monte de brasileiros sem chance nenhuma.