Aqui o pessoal não corre, é difícil ver alguém andando a mais de 40 km/h na cidade. Dá para andar de bicicleta tranqüilamente na rua porque bicicletas têm prioridade e isso é respeitado: cansei de ver carros e até mesmo ônibus e caminhões andando atrás de um ciclista porque a rua é estreita e não tem como ultrapassar; e mesmo assim nunca vi um carro buzinar para a bicicleta sair da frente e abrir caminho. Com os pedestres é a mesma coisa: basta se aproximar da faixa de segurança que os carros irão começar a parar. Inclusive tem muita gente que atravessa a rua sem ao menos olhar se vem carro ou se vão parar, tanta é a confiança.
Mas cada um tem que fazer sua parte: das bicicletas é exigido terem sineta ou buzina, refletores, farol dianteiro e sinalizador traseiro. Quando se vai dobrar para a esquerda ou direita tem que sinalizar com a mão para alertar quem vem atrás. Assim como os carros respeitam as bicicletas os ciclistas devem respeitar os pedestres, sempre parando e dando prioridade pra eles quando necessário. E o pedestre, por sua vez, tem que fazer sua parte atravessando somente onde tem faixa de segurança.
Por que no Brasil não é assim? Afinal, se abrirem o Código de Trânsito diz lá que bicicleta tem que andar na rua com os carros, e deve ter prioridade sobre eles. Alguém já viu um carro esperando pacientemente atrás de uma bicicleta no Brasil? Diz lá também que a prioridade é sempre do pedestre na faixa de segurança que não tem semáforo, mas quantos de nós temos coragem de atravessar na frente de um carro? Se tudo isso está previsto, por que não funciona? Acontece que ninguém faz sua parte. A culpa sempre é do outro:
O gaúcho se considera um motorista responsável e culpa os demais pelos perigos do trânsito. A distorção entre a imagem que o condutor tem de si, em comparação com a que faz dos outros, é uma das principais conclusões de uma pesquisa divulgada ontem pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran), na Capital.
[...]
Agora, por exemplo, 69,1% dos motoristas entrevistados em 20 municípios disseram não cometer imprudências, mas 88% avaliaram que o mesmo não ocorre com os outros à volta. Do total, 90,6% ainda relataram que não receberam multas nos últimos 12 meses e 97,6% não se envolveram em acidentes no mesmo período.Tenho certeza que mais da metade dos motoristas do Brasil iria perder a carteira aqui em menos de um ano, se dirigisse da mesma forma. Acontece que o pessoal no Brasil não sabe dirigir. Dirigir não é saber controlar o carro; dirigir é saber se comportar no trânsito, e infelizmente nós não sabemos. Eu mesmo, quando vim para cá, me dei conta de que não sabia, que eu era muito agressivo na direção.
A contradição de pensamento fica evidente em vários pontos. Enquanto 82,2% dizem respeitar os limites de velocidade, 55,8% observam que os outros não seguem essa regra. Em uma escala de zero a 10, o gaúcho avalia que está em 8,4 no quesito conhecimentos das leis de trânsito. Quando analisa os outros, ele acha que sabem menos: 6,2.
– As pessoas sabem dos problemas, mas não acham que são responsáveis por eles. A pesquisa traz indagações que vamos analisar para fazer um diagnóstico preciso e promover ações educativas – afirma o diretor-presidente do Detran, Sergio Filomena.
O levantamento, realizado para cumprir norma do Conselho Nacional de Trânsito que prevê pesquisas para embasar campanhas de trânsito, também mostra que o comportamento dos outros gera sentimento de insegurança. Mais da metade dos motoristas ouvidos diz se sentir inseguro porque os demais condutores não respeitam leis, são imprudentes e mal-educados.
E qual a solução para isso? Educação? Não acho que seja. Veja bem, muitos de nós que começassem a dirigir aqui teria que imediatamente começar a dirigir de outra forma, porque caso contrário há a certeza da punição. Não é educação o que falta, todo mundo tá careca de saber o que é o correto, o que falta é a punição e a responsabilização. Quem não sabe que não pode beber e dirigir, mas faz assim mesmo sem consideração nenhuma com o bem-estar dos outros? Nenhum investimento em educação vai mudar esse comportamento: somente uma multa gigante, cadeia, e possível perda da carteira pelo resto da vida vai resolver, como é líquido e certo que vai acontecer aqui na Suécia.
(É por isso que me dá muita raiva essa mudança na lei no Brasil que diminuiu o limite do nível de álcool no sangue para quase zero — de 0,8% que era antes, se não me engano. O problema nunca foi o nível de álcool, tanto que quem se envolve em acidentes bebeu muito mais do que isso. O problema é que nunca houve fiscalização, e continua não havendo. Muda-se a lei mas continua-se tudo igual.)
O seguro obrigatório aqui na Europa, que é totalmente diferente do Brasil, também ajuda. Aqui o seguro não existe para cobrir o dono ou o seu carro, aqui o seguro é para cobrir 100% dos danos materiais e pessoais cometidos contra terceiros cometidos no caso de colisão ou atropelamento. Quem não tem esse tipo de seguro não pode andar nas ruas. Acho justíssimo, afinal quem quer ter a permissão de dirigir (veja bem, não é um direito) tem que ter condições de arcar com as despesas de quaisquer danos que vier a provocar. Se uma pessoa é má motorista e se envolve freqüentemente em acidentes, o seguro dela vai aumentar tanto de valor que ela vai ter que passar a dirigir direito ou sair das ruas.
Outra coisa que não vejo aqui são engarrafamentos. Malmö, onde moro, é a terceira maior cidade da Suécia mas o trânsito flui. Está certo que tem apenas uns 300 mil habitantes, mas o trânsito flui muito melhor que em Santa Maria (RS), onde morava, que tem apenas 200 mil. Todo mundo diz que as ruas em Santa Maria são estreitas, mas aqui não são maiores — e o que é pior, aqui os carros ficam estacionados na rua em ambos os lados, o que deixa em muitas ruas de mão dupla espaço para apenas um carro passar de cada vez. O que eu acho é que aqui o governo se antecipa e não deixa o problema aparecer: basicamente investimento maciço em transporte público, e desestímulos a quem insiste em usar o carro. Em Estocolmo eu sei que há uma taxa-engarrafamento que tem que ser paga diariamente para quem anda de carro na cidade. Aqui para atravessar de carro a ponte do Öresund, que liga Malmö à Copenhague, o pedágio custa R$ 150 em cada sentido (reclame agora dos preços do pedágio no Brasil); já atravessar de trem custa R$ 30 — mas se comprar o cartão mensal tem mais de 50% de desconto.
Enquanto isso, no Brasil a venda de carros é vista como símbolo de progresso. O resultado:
Parece mentira que o assunto sobre a criminalidade reinante tenha sido completamente abafado pelos engarrafamentos de trânsito na Grande Porto Alegre e, principalmente, pelos congestionamentos na Capital.O Paulo Sant'Ana tem razão em dizer que o problema vem de décadas e não é de fácil solução, mas não consigo compreender que ele diga que o transporte público não adianta para resolver o engarrafamento se é óbvio que cada ônibus a mais implica uns 30 ou 40 carros a menos. Mas reconheço que convencer as pessoas num país onde o carro é um dos símbolos máximos de status a pegar um ônibus é uma tarefa nada fácil.
São médicos, com seus carros engarrafados, chegando atrasados a consultas e cirurgias, são profissionais de todos os matizes chegando atrasados a seus serviços, são os clientes desses profissionais também chegando atrasados.
E todos os engarrafados gastando o dobro ou o triplo de gasolina no “para-segue-para-segue”, levando o quíntuplo do tempo para chegar aos seus destinos.
*E cada vez mais se agrava o congestionamento das nossas ruas e avenidas.
Em última análise, talvez todos sejamos culpados, os governantes e nós. Os governantes porque cruzaram as mãos nas últimas décadas e não prepararam a cidade e o Estado para o futuro, tinham de ter previsto esse gigantesco engarrafamento.
E nós, pergunto, será que temos culpa? Acontece o seguinte, se tivéssemos ônibus em frente a nossa casa, interligado aos mais diferentes lugares, ainda assim deixaríamos de apanhar o coletivo e ainda assim iríamos em nossos próprios carros? Se a resposta for sim, então somos culpados.
*Em Porto Alegre já chegamos à marca de quase 700 mil veículos emplacados.
É espantoso: chegamos agora a um veículo por dois habitantes. Tinha de estourar, um dia haveria de explodir.
Fui um dos primeiros, os meus leitores são testemunhas, a perceber que iríamos engarrafar, há anos escrevi colunas advertindo.
Fui julgado um louco, no máximo, e um precipitado, no mínimo.
*Agora está aí o quase colapso. Aparentemente sem remédio, porque há recursos para realizar a Copa do Mundo mas não os há para construir metrôs.
Mais sério do que tudo isso é quando uma ambulância que traz um paciente que necessita ser atendido com urgência jaz engarrafada.
Dói no coração da gente.
*O engarrafamento começa dentro de Porto Alegre e por osmose vai se transferindo de modo terrível para os municípios vizinhos, através das estradas principais.
E o que também é grave: não há como fugir ao engarrafamento desviando por outras avenidas: todas estão engarrafadas.
E, no meio da catástrofe, outras minicatástrofes: os táxis, os lotações e os ônibus entram na mesma bacia das almas, concorrem com os carros e terminam também engarrafados.
Vejo técnicos pregando que se deve investir no transporte coletivo para atenuar a crise.
Mas o transporte coletivo não está na mesma via e na mesma condição de engarrafamento? De que adiantaria o transporte coletivo?
Não sei qual será a solução: não se pode resolver em dias ou meses o problema criado com decênios de omissão.
Pois bem. Espero ter dado uma idéia de como é o trânsito aqui na Suécia. A gente pode chegar lá também um dia, basta cada um de nós fazer a nossa parte.
6 comments:
Ola,
Sou Marina Cardoso, autora do blog Óbvio e Atual, um blog que fala sobre atualidades em geral e estou selecionando correspondentes por todo o mundo. A idéia é que uma vez por mês ( ou quando for possível para você ), você produza uma "matéria" para meu blog com alguma curiosidade ou notícia sobre seu país.
Algo que seja óbvio e atual, sabe? Sua visão BRASILEIRA em cima de um fato que tenha acontecido por aí.
Vendo seu blog, vi que seu perfil é exatamente o que procuro.
Será uma honra ter você fazendo parte do blog.
Aguardo contato.
Att,
Marina Cardoso - Óbvio&Atual
Blog: www.obvioeatual.com
MSN: obvioeatual@hotmail.com
email: marinacardoso@obvioeatual.com
Quanto tempo, hein, ñ tínhamos a honra d um novo post! :D
Um pequeno adendo: no Brasil, há também o seguro obrigatório, q impede por lei o veículo d trafegar, caso ñ esteja em dia, e é destinado somente à indenização d danos pessoais, ñ materiais ( http://www.dpvatseguro.com.br/conheca/oquee.asp ).
Ñ obstante, concordo em vários pontos contigo, principalmente, o d q deveria haver prioridade no uso d transporte coletivo a carros. Mas me responda quantas vezes tu pega transporte coletivo lotado, ou q tenha q ficar mais d 10 minutos em pé, aí na Suécia? Seria interessante uma comparação desse c/ o d Santa Maria.
Um outro assunto interessante a c debater, q, na minha opinião, é relacionado, mas ñ tanto quanto parece, c/ esse; é sobre prevenção d acidentes. Podemos partir do princípio q, d certa forma, o controle d congestionamentos vai d encontro à prevenção d acidentes. Isso porque um carro num congestionamento está parado, ñ pode correr; fica meio difícil d atropelar alguém. ;)
Seguindo essa linha d pensamento, tudo o q o governo tem a fazer é tentar fazer o trânsito cada vez mais congestionado pra q ñ haja mais acidentes. :D Obviamente, ñ é por esse lado a solução, porque na realidade, somente as ruas principais ficam congestionadas; as ruas menores ñ. Quando a pessoa, dirigindo um carro, sai dum congestionamento ela vai correr na rua livre, pois está super-atrasada. E aí: acidente!
Além disso eu acho q a preocupação maior na prevenção d acidentes d trânsito seriam as auto estradas. Onde a velocidade é maior, implicando em probabilidade muito maior d morte em caso d acidente.
Bom, mas isso talvez seja um papo pra outro post.
Abraço.
Sim, eu sei que há o seguro obrigatório no Brasil mas ele funciona de forma diferente. No Brasil todo mundo paga o mesmo valor, e vai tudo para o governo. Na Suécia (e no resto da Europa) o seguro não é do governo, tu pode fazer em qualquer seguradora, mas como é um seguro privado o valor que tu vai pagar vai depender do carro, da tua idade e do teu *histórico*. Se tu é do tipo que te envolve em acidentes, teu seguro vai custar muito mais. No Brasil se o cara atropelou 10 pessoas, no próximo ano que for renovar o seguro ele paga exatamente o mesmo valor de um motorista exemplar. Isso além de ser totalmente injusto faz com que o mau motorista não sinta no bolso. Entendeu a diferença?
O argumento da auto-estrada cai por terra porque aqui na Europa os limites de velocidade são de 110 ou 120 km/h, e em algumas autobahns na Alemanha nem há limite; mesmo assim a proporção de acidentes é ínfima comparada com o Brasil. Acontece que no Brasil além das pessoas não saberem dirigir (de novo: dirigir não é só saber andar com o carro) elas não sofrem punição por não obedecer às regras de trânsito e segurança.
Sobre o transporte público: é comum sim estar cheio durante o horário de pico e ter que andar de pé, tanto os ônibus quanto os trens. Já peguei trens que estavam mais lotados que os ônibus para a UFSM, embora estar lotado dessa forma é exceção e não regra.
É...
Exceção a gente tolera! Lá de vez em quando vai! Mas quando lotação, atraso, pinga-pinga é regra! Aí é soda!!
Eu teria o maior prazer de andar de ônibus se eles fossem confortáveis, não atrasassem e fossem diretos (não pinga pinga), ou seja o contrário dos Efal da vida!! (Detalhe: eu ando de ônibus todos os dias e a parada do Efal não é dentro da UFSM. É lá no trevo para os horários que viajo! Portanto além da péssima viagem ainda tem o fato de ter de andar 1km! Faça chuva ou sol! Mas tudo bem! Por enquanto não é vantagem ir de carro!)
É fácil falar mal dos carros quando se tem qualidade no transporte público! Eu também falaria se morasse em Curitiba por exemplo!
Outro fator é o clima! Quem é o louco que vai trabalhar de bike num calor de 44° a sombra? O k-ra vai morrer desidratado!
Segundo Freud, o carro é a representação do Pênis! Por isso a relação dos homens com os carros! Quanto maior o e + bonito o carro, menor é o pênis! Mas sinceramente eu acho isso coisa de viado! Hahahaha
Eu vejo que o problema do mundo não é a quantidade de carros! e sim a quantidade de gente neste planeta! Quanto + gente, mais problemas teremos! Tomara que dê uma guerra, ou apareça alguma doença que mate metade da população! Eu inclusive! Não me importo! desde que seja para o bem do planeta!
É isso aí! Castração em massa! Hahahahahaha!
Um abraço!
Boa noite Leonardo!
Tudo bem?
O seu blog me deu a inspiração para voltar a postar no blog...
Achei super interessante sobre o trânsito da Suécia.
Infelizmente o Brasil é um país que acabou se acomodando, e muitos prometem mudar, melhorar... mas cadê a mudança?
Só mesmo os países da Europa para ter o nível de inteligência de agir e prevenir contra o congestionamento, que no Brasil tem, especialmente em São Paulo.
Excelente matéria! Inspirou-me para escrever uma matéria no meu blog - lucianolessa.com.br
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