2010-07-25

A Suécia e o trânsito

Uma das primeiras coisas que notei quando cheguei aqui na Suécia é como o trânsito é tranqüilo e os motoristas são, de modo geral, calmos e respeitosos. Dificilmente escuto alguma buzina, quase nunca vi um acidente, e quase não se ouve falar de atropelamentos ou mortes no trânsito. Fico pensando: por que será que no Brasil não é assim?

Aqui o pessoal não corre, é difícil ver alguém andando a mais de 40 km/h na cidade. Dá para andar de bicicleta tranqüilamente na rua porque bicicletas têm prioridade e isso é respeitado: cansei de ver carros e até mesmo ônibus e caminhões andando atrás de um ciclista porque a rua é estreita e não tem como ultrapassar; e mesmo assim nunca vi um carro buzinar para a bicicleta sair da frente e abrir caminho. Com os pedestres é a mesma coisa: basta se aproximar da faixa de segurança que os carros irão começar a parar. Inclusive tem muita gente que atravessa a rua sem ao menos olhar se vem carro ou se vão parar, tanta é a confiança.

Mas cada um tem que fazer sua parte: das bicicletas é exigido terem sineta ou buzina, refletores, farol dianteiro e sinalizador traseiro. Quando se vai dobrar para a esquerda ou direita tem que sinalizar com a mão para alertar quem vem atrás. Assim como os carros respeitam as bicicletas os ciclistas devem respeitar os pedestres, sempre parando e dando prioridade pra eles quando necessário. E o pedestre, por sua vez, tem que fazer sua parte atravessando somente onde tem faixa de segurança.

Por que no Brasil não é assim? Afinal, se abrirem o Código de Trânsito diz lá que bicicleta tem que andar na rua com os carros, e deve ter prioridade sobre eles. Alguém já viu um carro esperando pacientemente atrás de uma bicicleta no Brasil? Diz lá também que a prioridade é sempre do pedestre na faixa de segurança que não tem semáforo, mas quantos de nós temos coragem de atravessar na frente de um carro? Se tudo isso está previsto, por que não funciona? Acontece que ninguém faz sua parte. A culpa sempre é do outro:
O gaúcho se considera um motorista responsável e culpa os demais pelos perigos do trânsito. A distorção entre a imagem que o condutor tem de si, em comparação com a que faz dos outros, é uma das principais conclusões de uma pesquisa divulgada ontem pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran), na Capital.
[...]
Agora, por exemplo, 69,1% dos motoristas entrevistados em 20 municípios disseram não cometer imprudências, mas 88% avaliaram que o mesmo não ocorre com os outros à volta. Do total, 90,6% ainda relataram que não receberam multas nos últimos 12 meses e 97,6% não se envolveram em acidentes no mesmo período.

A contradição de pensamento fica evidente em vários pontos. Enquanto 82,2% dizem respeitar os limites de velocidade, 55,8% observam que os outros não seguem essa regra. Em uma escala de zero a 10, o gaúcho avalia que está em 8,4 no quesito conhecimentos das leis de trânsito. Quando analisa os outros, ele acha que sabem menos: 6,2.

– As pessoas sabem dos problemas, mas não acham que são responsáveis por eles. A pesquisa traz indagações que vamos analisar para fazer um diagnóstico preciso e promover ações educativas – afirma o diretor-presidente do Detran, Sergio Filomena.

O levantamento, realizado para cumprir norma do Conselho Nacional de Trânsito que prevê pesquisas para embasar campanhas de trânsito, também mostra que o comportamento dos outros gera sentimento de insegurança. Mais da metade dos motoristas ouvidos diz se sentir inseguro porque os demais condutores não respeitam leis, são imprudentes e mal-educados.
Tenho certeza que mais da metade dos motoristas do Brasil iria perder a carteira aqui em menos de um ano, se dirigisse da mesma forma.  Acontece que o pessoal no Brasil não sabe dirigir. Dirigir não é saber controlar o carro; dirigir é saber se comportar no trânsito, e infelizmente nós não sabemos. Eu mesmo, quando vim para cá, me dei conta de que não sabia, que eu era muito agressivo na direção.

E qual a solução para isso? Educação? Não acho que seja. Veja bem, muitos de nós que começassem a dirigir aqui teria que imediatamente começar a dirigir de outra forma, porque caso contrário há a certeza da punição. Não é educação o que falta, todo mundo tá careca de saber o que é o correto, o que falta é a punição e a responsabilização. Quem não sabe que não pode beber e dirigir, mas faz assim mesmo sem consideração nenhuma com o bem-estar dos outros? Nenhum investimento em educação vai mudar esse comportamento: somente uma multa gigante, cadeia, e possível perda da carteira pelo resto da vida vai resolver, como é líquido e certo que vai acontecer aqui na Suécia.

(É por isso que me dá muita raiva essa mudança na lei no Brasil que diminuiu o limite do nível de álcool no sangue para quase zero — de 0,8% que era antes, se não me engano. O problema nunca foi o nível de álcool, tanto que quem se envolve em acidentes bebeu muito mais do que isso. O problema é que nunca houve fiscalização, e continua não havendo. Muda-se a lei mas continua-se tudo igual.)

O seguro obrigatório aqui na Europa, que é totalmente diferente do Brasil, também ajuda. Aqui o seguro não existe para cobrir o dono ou o seu carro, aqui o seguro é para cobrir 100% dos danos materiais e pessoais cometidos contra terceiros cometidos no caso de colisão ou atropelamento. Quem não tem esse tipo de seguro não pode andar nas ruas. Acho justíssimo, afinal quem quer ter a permissão de dirigir (veja bem, não é um direito) tem que ter condições de arcar com as despesas de quaisquer danos que vier a provocar. Se uma pessoa é má motorista e se envolve freqüentemente em acidentes, o seguro dela vai aumentar tanto de valor que ela vai ter que passar a dirigir direito ou sair das ruas.

Outra coisa que não vejo aqui são engarrafamentos. Malmö, onde moro, é a terceira maior cidade da Suécia mas o trânsito flui. Está certo que tem apenas uns 300 mil habitantes, mas o trânsito flui muito melhor que em Santa Maria (RS), onde morava, que tem apenas 200 mil. Todo mundo diz que as ruas em Santa Maria são estreitas, mas aqui não são maiores — e o que é pior, aqui os carros ficam estacionados na rua em ambos os lados, o que deixa em muitas ruas de mão dupla espaço para apenas um carro passar de cada vez. O que eu acho é que aqui o governo se antecipa e não deixa o problema aparecer: basicamente investimento maciço em transporte público, e desestímulos a quem insiste em usar o carro. Em Estocolmo eu sei que há uma taxa-engarrafamento que tem que ser paga diariamente para quem anda de carro na cidade. Aqui para atravessar de carro a ponte do Öresund, que liga Malmö à Copenhague, o pedágio custa R$ 150 em cada sentido (reclame agora dos preços do pedágio no Brasil); já atravessar de trem custa R$ 30 — mas se comprar o cartão mensal tem mais de 50% de desconto.

Enquanto isso, no Brasil a venda de carros é vista como símbolo de progresso. O resultado:
Parece mentira que o assunto sobre a criminalidade reinante tenha sido completamente abafado pelos engarrafamentos de trânsito na Grande Porto Alegre e, principalmente, pelos congestionamentos na Capital.

São médicos, com seus carros engarrafados, chegando atrasados a consultas e cirurgias, são profissionais de todos os matizes chegando atrasados a seus serviços, são os clientes desses profissionais também chegando atrasados.

E todos os engarrafados gastando o dobro ou o triplo de gasolina no “para-segue-para-segue”, levando o quíntuplo do tempo para chegar aos seus destinos.

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E cada vez mais se agrava o congestionamento das nossas ruas e avenidas.

Em última análise, talvez todos sejamos culpados, os governantes e nós. Os governantes porque cruzaram as mãos nas últimas décadas e não prepararam a cidade e o Estado para o futuro, tinham de ter previsto esse gigantesco engarrafamento.

E nós, pergunto, será que temos culpa? Acontece o seguinte, se tivéssemos ônibus em frente a nossa casa, interligado aos mais diferentes lugares, ainda assim deixaríamos de apanhar o coletivo e ainda assim iríamos em nossos próprios carros? Se a resposta for sim, então somos culpados.

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Em Porto Alegre já chegamos à marca de quase 700 mil veículos emplacados.

É espantoso: chegamos agora a um veículo por dois habitantes. Tinha de estourar, um dia haveria de explodir.

Fui um dos primeiros, os meus leitores são testemunhas, a perceber que iríamos engarrafar, há anos escrevi colunas advertindo.

Fui julgado um louco, no máximo, e um precipitado, no mínimo.

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Agora está aí o quase colapso. Aparentemente sem remédio, porque há recursos para realizar a Copa do Mundo mas não os há para construir metrôs.

Mais sério do que tudo isso é quando uma ambulância que traz um paciente que necessita ser atendido com urgência jaz engarrafada.

Dói no coração da gente.

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O engarrafamento começa dentro de Porto Alegre e por osmose vai se transferindo de modo terrível para os municípios vizinhos, através das estradas principais.

E o que também é grave: não há como fugir ao engarrafamento desviando por outras avenidas: todas estão engarrafadas.

E, no meio da catástrofe, outras minicatástrofes: os táxis, os lotações e os ônibus entram na mesma bacia das almas, concorrem com os carros e terminam também engarrafados.

Vejo técnicos pregando que se deve investir no transporte coletivo para atenuar a crise.

Mas o transporte coletivo não está na mesma via e na mesma condição de engarrafamento? De que adiantaria o transporte coletivo?

Não sei qual será a solução: não se pode resolver em dias ou meses o problema criado com decênios de omissão.
O Paulo Sant'Ana tem razão em dizer que o problema vem de décadas e não é de fácil solução, mas não consigo compreender que ele diga que o transporte público não adianta para resolver o engarrafamento se é óbvio que cada ônibus a mais implica uns 30 ou 40 carros a menos. Mas reconheço que convencer as pessoas num país onde o carro é um dos símbolos máximos de status a pegar um ônibus é uma tarefa nada fácil.

Pois bem. Espero ter dado uma idéia de como é o trânsito aqui na Suécia. A gente pode chegar lá também um dia, basta cada um de nós fazer a nossa parte.