2013-09-30

As carroças e os burros

Muito interessante este artigo (em inglês) publicado pela Associated Press: “Cars made in Brazil are deadly” (carros feitos no Brasil são mortais). Não traz nenhuma novidade, mas é mais uma comprovação de que os carros feitos no Brasil são umas carroças.

Vou comentar algumas partes do artigo (em tradução livre):
As montadoras brasileiras têm um lucro de 10%, em comparação a 3% nos EUA e uma média mundial de 5% [...]
Nenhuma novidade.
Somente em 2014 a lei exigirá air bags frontais e ABS em todos os carros, itens de segurança que há anos são obrigatórios em países industrializados. O país também terá novas regras de impacto — no papel, pelo menos; os reguladores brasileiros não têm seu próprio laboratório de teste de impacto [crash test] para verificar as reivindicações das montadoras sobre o desempenho dos veículos, nem há laboratórios independentes no país.
Ou seja, de acordo com a nova legislação são as próprias montadoras que vão informar o resultado e não haverá nenhum teste de nenhuma entidade independente para confirmar os dados. Coisas de Brasil.
Os modelos mais baratos de 4 dos 5 carros mais vendidos, fabricados pela GM, VW e Fiat, receberam 1 estrela de 5 [...]. Tal nota significa que os carros oferecem pouca proteção contra colisões frontais sérias, comparadas com carros nota 4 ou 5 estrelas, que são virtualmente o mínimo que os consumidores nos EUA e Europa compram.
O Ford Ka vendido na Europa ganhou 4 estrelas quando testado pela Euro NCAP em 2008; sua versão latino-americana ganhou 1 estrela.
Comprovação que nossos carros não têm segurança nenhuma.
O Nissan March produzido no México e vendido na América Latina recebeu 2 estrelas [...] enquanto que a versão européia vendida por praticamente o mesmo preço recebeu 4 estrelas. Os testes mostraram que a versão latino-americana tem uma estrutura fraca e instável que oferece pouca proteção ao seus ocupantes mesmo em acidentes não sérios.
A Nissan disse que o March vendido no Brasil é “praticamente o mesmo modelo” oferecido na Europa. “A diferença no resultado é devida à variações nos testes aplicados pela NCAP em diferentes partes do mundo”.

Não é verdade, diz Alejandro Furas, diretor técnico para os programas de teste de impacto globais da NCAP.

”Nós realizamos o teste de impacto frontal exatamente da mesma maneira que o da Europa. Os carros são testados no mesmo laboratório, com o mesmo tipo de boneco, sob as mesmas condições e com as mesmas pessoas cuidando do laboratório.”
A Fiat disse que ”em geral os projetos brasileiros recebem mais reforços” na carroceria para fortificá-los contra as ”rodovias com terreno mais difícil” do país.

Entretanto, os testes NCAP mostram que o carro mais vendido da Fiat no Brasil, o Novo Uno, tem uma carroceria instável e recebeu apenas 1 estrela.

A filmagem dos testes de impacto mostram a frente do carro dobrando como uma sanfona, [...]
Em outras palavras, além dos carros serem uma porcaria as montadoras mentem.
O Celta ganhou 1 estrela depois de sua porta sair da dobradiça e o teto do passageiro dobrar em um formato de V invertido durante o teste de impacto.

A resposta da GM limitou-se a dizer que seus carros seguem a legislação.

Um engenheiro de uma grande montadora doa EUA, falando anonimamente por medo de perder o emprego, disse que por anos e anos assistiu a sua empresa não incluir itens de segurança mais avançados no Brasil, simplesmente porque a lei não os exige.
É descarado que o governo, ao invés de defender os interesses da população, ao falhar completamente em exigir um mínimo de segurança dos carros (e na nova legislação vai exigir, mas não fiscalizar) defende apenas o interesse das montadoras — que por sua vez lavam as mãos.
[...] vítimas de acidentes no Brasil morreram 4 vezes mais do que nos EUA.

Os perigos são devidos ao básico, dizem os engenheiros: falta de reforço na carroceria, uso de aço de menor qualidade, soldas mais fracas ou em menor quantidade para manter o veículo inteiro, e plataformas projetadas décadas antes de avanços modernos de segurança.

“A eletricidade usada na fabricação de um carro corresponde a por volta de 20% do custo da estrutura” [...]

”Se você economiza em eletricidade, você reduz o custo. Uma maneira de economizar eletricidade é reduzindo o número de soldas, ou utilizando menos energia por solda. Isto afeta o desempenho da estrutura no evento de uma colisão.”
Alguém está surpreso que o lucro das montadoras brasileiras é o dobro da média mundial e mais que o triplo do lucro nos EUA?
[...] em mais de 12 entrevistas com vítimas brasileiras de acidentes que ficaram paralisadas, nenhuma delas considerou uma ação legal contra as montadoras.
“Estamos 20 anos atrás dos EUA e Europa em termos de consciência do consumidor [...] A nova e emergente classe média que está entrando no mercado tem pouca ou nenhuma informação sobre segurança automotiva. Não querem saber sobre a segurança dos automóveis. É esta mesma classe de consumidores que as montadoras estão alvejando e para ela que vendem uma montanha de carros”.

[...] E muitos motoristas simplesmente valorizam mais adicionais como rodas de liga leve e sistemas de som do que itens invisíveis como zonas deformáveis.
É por isso que num país de burros, sem educação, vendem carroças com “espelhinhos” pros índios que retribuem com ouro, felizes que fizeram um ótimo negócio.
O governo brasileiro diz que suas novas leis [...] irão dramaticamente melhorar a segurança, assim como os novos padrões de impacto. Mas como não há centros de testes de impacto independentes no Brasil, as empresas não sofrerão o mesmo escrutínio que em outros lugares. Elas mesmas farão os testes de impacto e apresentarão o resultado ao governo para aprovação. Porque não há nenhuma cláusula de conformidade na legislação brasileira, os carros não serão verificados para garantir que cumprem as leis de segurança.
E nada vai mudar. O governo defende os interesses do lobby das montadoras, ao invés de defender os interesses dos cidadãos.
Alexandre Cordeiro, o ministro encarregado das leis de segurança, [...] disse que “em testes de colisão frontal e lateral os carros brasileiros são tão seguros quanto os americanos e europeus”.

Entretanto, quando perguntado pelas enormes diferenças entre os resultados dos testes da NCAP dos carros brasileiros e europeus, Cordeiro admitiu que melhorias precisam ser feitas, dizendo que ”precisamos evoluir e estamos trabalhando nisso”.
Típico comportamento de político brasileiro: ignora a realidade, mente na maior cara dura que nossos padrões são de primeiro mundo e quando desmentido pela a natureza nua e crua dos fatos diz simplesmente que ”precisamos evoluir” e ”estamos trabalhando” para melhorar.

Enquanto isso, as carroças vão continuar a ser feitas já que existem milhões de burros para puxá-las.