Fico indignado de ler as notícias sobre o acidente da TAM no Brasil. É CPI investigando pra cá, é Polícia Federal investigando pra lá, é Polícia Civil de São Paulo investigando pro outro lado, é conteúdo da caixa preta vazando...
Não aprendemos nada desde o acidente da Gol.
Assim como naquele acidente, a primeira coisa foi querer achar culpados. Vamos culpar os americanos! Não, foi o transponder! Foram os controladores! Não, foram os equipamentos! Foi o TCAS! E por assim vai. Agora foi a pista, quero dizer, o governo, quero dizer, o piloto, quero dizer, a TAM, quero dizer, o reverso, quero dizer, a Airbus...
Normal que num momento de comoção logo depois de um acidente a opinião pública e a imprensa estejam atrás de uma explicação. Ou melhor, de um culpado. Surgem teorias e explicações simplistas que tentam achar um bode expiatório na história. Até aí tudo bem, é compreensível. O que me indigna são as autoridades, na ânsia de mostrar serviço, iniciarem investigações buscando responsabilizações criminais.
Isso não é assim em nenhum lugar do mundo. Acidente aéreo não é crime. Não há culpados.
Sei que isso pode parecer difícil ou até mesmo desrespeitoso para quem perdeu parentes ou amigos em uma tragédia dessa. Mas por favor, acompanhem meu raciocínio. Já se tornou até clichê dizer isso, mas um acidente aéreo não acontece devido a um único fator. Existem vários sistemas e procedimentos redundantes, e para algo dar errado várias coisas têm que acontecer ao mesmo tempo.
Voar de avião só e seguro porque toda a indústria aeronáutica é obcecada com a questão da segurança. Aviões têm sistemas redundantes, têm manutenção constante e cada vez que se troca um parafuso em um avião isso é registrado e o novo parafuso tem que ter sido homologado. Em terra existe toda uma infra-estrutura para dar suporte aos aviões enquanto eles estão no ar. E mesmo assim, às vezes, acontecem acidentes.
Pois bem, quando há a infelicidade de acontecer um acidente aéreo uma equipe de investigação técnica é formada para estudar minuciosamente o evento. Na maioria das vezes essa equipe é acompanhada por pessoal de outros países e do fabricante da aeronave em questão. O objetivo dessa equipe é desvendar exatamente o que aconteceu e identificar todos os fatores que contribuíram para o acidente. Não é objetivo dessa equipe apontar culpados nem atribuir nenhum tipo de responsabilidade civil ou criminal, mas sim levantar o que deu errado: falha humana, nos equipamentos, procedimentos, etc.
E por que isso é feito assim? Ora, os fatores que contribuíram para um acidente podem estar acontecendo em outros lugares. Aeronaves podem ter defeitos de projeto. Procedimentos podem ter falhas. Um equipamento pode ser confuso de operar e induzir o operador a erros. É imperativo descobrir exatamente o que deu errado para evitar que isto aconteça novamente. Para ser possível identificar esse tipo de coisa, é imprescindível a cooperação de todos em uma investigação: controladores, funcionários de aeroportos, do governo, da companhia aérea. É preciso analisar os pedaços da aeronove, caixas-pretas, registros de manutenção, manuais, procedimentos. A maior parte dessas informações está na mão da companhia aérea ou do governo.
O que acontece quando o governo, ou as companhias aéreas, ou outros envolvidos que possuem as informações-chave para desvendar um acidente podem ser apontados como culpados ou responsabilizados?
Simples, eles vão começar a ocultar informações. Ou alterar documentos. Ou destruir evidências. Afinal, ninguém quer cavar a própria cova. E a investigação vai ser prejudicada, e provavelmente as reais causas nunca serão encontradas.
Por isso que é de praxe no mundo inteiro que uma investigação de acidente aéreo seja feita por técnicos independentes, acompanhados por observadores e fabricantes dos equipamentos. Depois de uma análise minuciosa que leva vários meses eles vão gerar um relatório que vai identificar as falhas e dar sugestões com melhorias, seja em equipamentos ou manuais ou procedimentos. Evita-se assim que aconteça um novo acidente causado pelo mesmo motivo (ou motivos).
Na esmagadora maioria dos acidentes aéreos não há crime. Exceto casos como atentados ou flagrante negligência. O que há são pequenos erros que se somam.
Mas no Brasil já se começa torto. Mal os corpos esfriam e a polícia já começa uma investigação. Quer culpados. Se abre uma CPI. E lá vão deputados, senadores, policiais, políticos em geral, todos experts em aviação dando suas opiniões e fazendo julgamentos, apontando causas e culpados. Fora saciar a fome da imprensa e do povo, que bem isso faz?
Afinal, as vítimas estão mortas. Nada vai trazê-las de volta. E a partir daí, o que é mais importante? Achar culpados, mandar pessoas pra cadeia, mas comprometendo a investigação? Ou descobrir tudo que seja possível sobre o acidente, com a cooperação de todos, buscando corrigir eventuais falhas e evitando que nova tragédia se repita, mesmo que o preço a pagar por isso seja que ninguém seja criminalmente responsabilizado?
Atualizado em 3/ago: não fui muito claro em alguns pontos, então fiz mais algumas colocações nos comentários.
4 comentários:
Discordo em parte! Isso seria no mundo perfeito! Pelo que deu pra perceber as empresas de aviação ainda estão muito "relaxadas" com relação a manutenção dos seus aviões, como pode ser visto em problemas diários que acontecem. Culpa de quem? Do lucro? Muitos vôos não são cancelados, ou aviões substituídos por conta do prejuízo momentâneo que isto causa, seja por um avião ficar parado, seja por medo de arranhar a imagem por ter que cancelar uma viagem.
Fazendo um paralelo com as rodovias, resguardadas as devidas porporções, quando ocorrem acidentes, existem sim os culpados, que podem inclusive ser responsabilizados civil ou criminalmente, mesmo que de folma culposa. E acho que está correto, porque se já sendo dessa forma, imagina se não o fosse! Motoristas fazendo ultrapassagens indevidas, abusando da velocidade, bebendo, não dando manutenção no veículo, etc. São muitos os acidentes onde a causa é mecânica, seja por falta de manutenção, por relaxamento mesmo ou quem sabe até por defeito no projeto do veículo. E o governo, por outro lado, deixando as rodovias nas condições que estão.
É óbvio que o principal ponto é descobrir quais foram as causas do acidente, uma vez que o mesmo não tem mais volta, para que não ocorram mais pelos mesmos motivos. Mas também é preciso pesar o quanto a não responsabilização vai ajudar na solução disso. Por um lado pode-se ganhar tendo os envolvidos não escondendo provas, se bem que isso só em si já é um crime. Mas por outro, perde-se muito por deixar essa sensação de impunidade. E infelizmente, no Brasil, as pessoas tem que ser multadas ou responsabilizadas criminalmente para tomarem alguma atitude. Todos sabem que viajar com um veículo em más condições é perigoso, não só para si como para outros inocentes. E mesmo assim, todo santo dia morre alguém pelo mesmo motivo.
Se todos tivessem a consciência de somente viajar com o carro em perfeito estado, ou se as empresas realizassem vôos somente com aviões em perfeito estado, se o governo fizesse sua parte na questão da infra-estrutura, muitas vidas seriam poupadas e ninguém precisaria ser obrigado, através de punição, a fazer o correto.
Abraço Schenkel
O meu post ficou confuso. O que eu quis dizer é que não é objetivo dos investigadores aéreos apontarem culpados. O objetivo é pura e simplesmente fazer um relatório apontando os fatores que contribuíram para o acidente e sugerindo melhorias.
Agora, se a polícia quiser pegar esse relatório e responsabilizar alguém depois de concluída a investigação daí já é outra história.
O que eu acho um absurdo é a polícia, ministério público, ou político querer fazer investigação de acidente aéreo. Isso é extremamente complexo e deve ser feito apenas por técnicos independentes, até porque eles não podem se curvar à pressões do governo ou de quem quer que seja. E não é atribuição deles também achar culpados. Eles produzem o relatório e depois as autoridades façam o que quiserem: multem, mandem prender, sei lá.
No Brasil é tudo torto, quem investiga é o CENIPA, que é um órgão militar do governo. O que é pior, é vinculado à Aeronáutica, a responsável pelo espaço aéreo. Ou seja, é a Aeronáutica investigando ela mesma. E os investigadores sendo militares e tendo que respeitar a hierarquia, como vão ser independentes? Resistir a pressões dos superiores e do govenro? É uma aberração total!
Espero que tenha ficado mais claro.
Mais uma coisa: acho apressado dizer que as empresas estão relaxadas na manutenção dos aviões. De todos os acidentes já ocorridos no Brasil, quantos deles tiveram como fator contribuinte falha na manutenção? Eu não lembro de nenhum.
Vejamos. Neste último acidente, pode-se até discordar da decisão da TAM em continuar a operação de um avião sem um reverso. Mas isso está até no manual da Airbus, não é item no-go, não afeta em nada a segurança pois todas as medições de pista e frenagem assumem que nenhum reverso é acionado (se não fosse assim como um avião com pane nos motores iria pousar?). Então na minha opinião isso não indica falha na manutenção neste caso. (Pode ser falha de julgamento, mas isso é outra história.) Mas a investigação recém iniciou, é prematuro dizer ainda.
No caso do acidente da Gol, não teve nada que ver com manutenção.
No caso do outro acidente da TAM, aquele que caiu depois da decolagem, foi uma falha de projeto no avião que fez com que o reverso abrisse em pleno vôo. Todos os Fokker no mundo foram modificados depois disso.
No outro acidente grande que tivemos, aquele da Varig que caiu no meio da mata na década de 80, foi falha do piloto que perdeu a rota e ficou sem combustível.
Esses são os que eu lembro. Tu lembra de algum acidente onde falha na manutenção foi um fator contribuinte?
Pergunta pro L. Naujorks como é a manutenção da TAM e da Gol pra ver a diferença entre elas! Ele tá no meio ele sabe!
depois da resposta dele tu vais mudar de opinião sobre acidentes devido à má manutenção! Principalmente da TAM!
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